A banca portuguesa e o desafio dos créditos verdes: entre o hype e a realidade
Nos últimos meses, os principais portais económicos portugueses têm dedicado páginas e páginas a um tema que parece ter conquistado definitivamente o léxico financeiro: os créditos verdes. Do Dinheiro Vivo ao Jornal Económico, do ECO ao Observador, todos falam deles. Mas será que sabemos realmente do que se trata? E mais importante: será que os bancos portugueses estão preparados para esta transição?
A verdade é que, enquanto os comunicados de imprensa das instituições financeiras enchem os nossos ecrãs com promessas de sustentabilidade, os números contam uma história diferente. Segundo dados recentes, apenas 15% da carteira de crédito à habitação em Portugal pode ser considerada 'verde'. Um valor que fica aquém das ambiciosas metas europeias e que levanta questões sobre a real aposta do sector.
Mas o que define, afinal, um crédito verde? Não se trata apenas de taxas de juro mais baixas para quem compra uma casa com certificado energético A+. Vai muito além disso. Estamos a falar de financiamento para reabilitação urbana, para energias renováveis, para mobilidade sustentável. Um universo que os bancos tradicionais ainda estão a aprender a navegar.
O caso do BCP é particularmente revelador. Apesar de ter sido um dos primeiros a lançar produtos específicos para eficiência energética, a sua implementação prática tem sido mais lenta do que o anunciado. Os processos burocráticos continuam complexos, a avaliação dos projetos é morosa e, em muitos casos, os clientes acabam por desistir antes mesmo de ver aprovado o seu financiamento.
Por outro lado, os bancos mais pequenos parecem estar a ganhar terreno nesta área. A CGD, através do seu programa 'Casa Eficiente', tem conseguido resultados interessantes, especialmente no apoio à reabilitação de edifícios antigos. Mas mesmo aqui, os números totais ainda são modestos quando comparados com o volume global de crédito à habitação.
O grande desafio, como me confessou um gestor bancário que preferiu não ser identificado, está na 'mudança de mentalidade'. 'Estamos habituados a avaliar risco com base em garantias reais e histórico de crédito. Agora temos de aprender a avaliar o impacto ambiental e a poupança energética futura. São métricas completamente diferentes.'
Esta tensão entre o velho e o novo mundo financeiro é particularmente visível nas PMEs. Muitas empresas portuguesas querem investir em sustentabilidade, mas esbarram na falta de produtos financeiros adequados. Os créditos verdes para empresas são ainda mais escassos do que para particulares, e quando existem, as condições são tão restritivas que poucos conseguem aceder a eles.
A regulação também não ajuda. Apesar da União Europeia ter estabelecido diretrizes claras através da Taxonomia Verde, a sua implementação em Portugal tem sido lenta e cheia de ambiguidades. Os bancos queixam-se da falta de critérios uniformes, enquanto os clientes se perdem num labirinto de certificações e requisitos.
Mas há sinais de esperança. O Banco de Portugal tem vindo a pressionar as instituições financeiras para acelerarem a sua transição verde, e os resultados começam a ser visíveis. No último trimestre, o volume de crédito verde aprovado aumentou 23% face ao período homólogo. Um crescimento significativo, ainda que partindo de uma base muito reduzida.
O que falta, então, para que os créditos verdes deixem de ser um nicho de mercado? Especialistas apontam três fatores críticos: simplificação dos processos, educação dos clientes e, sobretudo, vontade política. Sem incentivos fiscais claros e sem uma estratégia nacional coerente, dificilmente veremos uma verdadeira revolução neste sector.
Enquanto isso, os portugueses continuam a pagar contas de energia cada vez mais altas, em casas cada vez menos eficientes. E os bancos continuam a financiar, maioritariamente, o mesmo tipo de projetos de sempre. A transição verde no crédito ainda está no seu início, e o caminho a percorrer é longo. Mas uma coisa é certa: quem chegar primeiro a este novo mercado terá uma vantagem competitiva difícil de igualar.
O futuro dos créditos verdes em Portugal dependerá, em grande medida, da capacidade dos bancos em reinventarem-se. Não basta pintar de verde os produtos existentes. É preciso criar soluções verdadeiramente inovadoras, que respondam às necessidades reais dos portugueses e aos desafios ambientais do nosso tempo. A corrida começou, mas ainda ninguém sabe ao certo quem vai chegar primeiro à meta.
A verdade é que, enquanto os comunicados de imprensa das instituições financeiras enchem os nossos ecrãs com promessas de sustentabilidade, os números contam uma história diferente. Segundo dados recentes, apenas 15% da carteira de crédito à habitação em Portugal pode ser considerada 'verde'. Um valor que fica aquém das ambiciosas metas europeias e que levanta questões sobre a real aposta do sector.
Mas o que define, afinal, um crédito verde? Não se trata apenas de taxas de juro mais baixas para quem compra uma casa com certificado energético A+. Vai muito além disso. Estamos a falar de financiamento para reabilitação urbana, para energias renováveis, para mobilidade sustentável. Um universo que os bancos tradicionais ainda estão a aprender a navegar.
O caso do BCP é particularmente revelador. Apesar de ter sido um dos primeiros a lançar produtos específicos para eficiência energética, a sua implementação prática tem sido mais lenta do que o anunciado. Os processos burocráticos continuam complexos, a avaliação dos projetos é morosa e, em muitos casos, os clientes acabam por desistir antes mesmo de ver aprovado o seu financiamento.
Por outro lado, os bancos mais pequenos parecem estar a ganhar terreno nesta área. A CGD, através do seu programa 'Casa Eficiente', tem conseguido resultados interessantes, especialmente no apoio à reabilitação de edifícios antigos. Mas mesmo aqui, os números totais ainda são modestos quando comparados com o volume global de crédito à habitação.
O grande desafio, como me confessou um gestor bancário que preferiu não ser identificado, está na 'mudança de mentalidade'. 'Estamos habituados a avaliar risco com base em garantias reais e histórico de crédito. Agora temos de aprender a avaliar o impacto ambiental e a poupança energética futura. São métricas completamente diferentes.'
Esta tensão entre o velho e o novo mundo financeiro é particularmente visível nas PMEs. Muitas empresas portuguesas querem investir em sustentabilidade, mas esbarram na falta de produtos financeiros adequados. Os créditos verdes para empresas são ainda mais escassos do que para particulares, e quando existem, as condições são tão restritivas que poucos conseguem aceder a eles.
A regulação também não ajuda. Apesar da União Europeia ter estabelecido diretrizes claras através da Taxonomia Verde, a sua implementação em Portugal tem sido lenta e cheia de ambiguidades. Os bancos queixam-se da falta de critérios uniformes, enquanto os clientes se perdem num labirinto de certificações e requisitos.
Mas há sinais de esperança. O Banco de Portugal tem vindo a pressionar as instituições financeiras para acelerarem a sua transição verde, e os resultados começam a ser visíveis. No último trimestre, o volume de crédito verde aprovado aumentou 23% face ao período homólogo. Um crescimento significativo, ainda que partindo de uma base muito reduzida.
O que falta, então, para que os créditos verdes deixem de ser um nicho de mercado? Especialistas apontam três fatores críticos: simplificação dos processos, educação dos clientes e, sobretudo, vontade política. Sem incentivos fiscais claros e sem uma estratégia nacional coerente, dificilmente veremos uma verdadeira revolução neste sector.
Enquanto isso, os portugueses continuam a pagar contas de energia cada vez mais altas, em casas cada vez menos eficientes. E os bancos continuam a financiar, maioritariamente, o mesmo tipo de projetos de sempre. A transição verde no crédito ainda está no seu início, e o caminho a percorrer é longo. Mas uma coisa é certa: quem chegar primeiro a este novo mercado terá uma vantagem competitiva difícil de igualar.
O futuro dos créditos verdes em Portugal dependerá, em grande medida, da capacidade dos bancos em reinventarem-se. Não basta pintar de verde os produtos existentes. É preciso criar soluções verdadeiramente inovadoras, que respondam às necessidades reais dos portugueses e aos desafios ambientais do nosso tempo. A corrida começou, mas ainda ninguém sabe ao certo quem vai chegar primeiro à meta.