A revolução silenciosa do crédito verde: como os bancos estão a mudar as regras do jogo
Num pequeno escritório em Lisboa, um analista bancário revira páginas de relatórios ambientais com a mesma atenção que outrora dedicava aos balanços financeiros. A cena, que poderia passar por um episódio de uma série sobre sustentabilidade, é na realidade o novo normal nas instituições financeiras portuguesas. O crédito verde deixou de ser um nicho de mercado para se tornar no motor de uma transformação profunda do sistema bancário nacional.
Nos últimos meses, os principais bancos portugueses anunciaram metas ambiciosas para a carteira de crédito sustentável. O BCP comprometeu-se a atingir 15 mil milhões de euros em financiamento verde até 2025, enquanto o Santander Portugal estabeleceu como objetivo que 40% do seu crédito à empresa tenha caraterísticas sustentáveis no mesmo período. Estas não são meras declarações de intenções – os números começam a aparecer nas demonstrações financeiras trimestrais, ainda que muitas vezes escondidos em notas de rodapé.
O que está a impulsionar esta mudança? A resposta tem várias camadas. Por um lado, a pressão regulatória do Banco Central Europeu, que através dos testes de stress climáticos está a forçar os bancos a quantificar os riscos das suas carteiras face à transição energética. Por outro, a procura crescente por parte das empresas, que veem no financiamento sustentável não apenas uma forma de reduzir custos, mas também de melhorar a sua imagem junto de consumidores cada vez mais conscientes.
Mas há um terceiro fator, menos visível mas igualmente importante: a concorrência entre bancos por uma nova geração de clientes. Os millennials e a geração Z, que começam agora a constituir famílias e a fazer investimentos significativos, mostram-se muito mais sensíveis às questões ambientais do que as gerações anteriores. Para captar estes clientes, os bancos precisam de oferecer mais do que taxas de juro competitivas – precisam de alinhar os seus valores com os dos seus clientes.
Esta corrida ao crédito verde está a criar oportunidades inesperadas. Pequenas e médias empresas que investem em eficiência energética ou em processos de produção mais limpos estão a conseguir condições de financiamento que há dois anos seriam impensáveis. Um fabricante de cortiça no Alentejo conseguiu recentemente um empréstimo com uma taxa 0,5 pontos percentuais abaixo do mercado por comprometer-se a reduzir o consumo de água em 30% nos próximos três anos.
No entanto, nem tudo são rosas neste novo mundo do financiamento sustentável. A falta de padrões uniformes para classificar o que é ou não é "verde" está a criar confusão no mercado. Um projeto pode ser considerado sustentável por um banco e rejeitado por outro, dependendo dos critérios utilizados. Esta fragmentação dificulta a comparação entre ofertas e pode levar a situações de "greenwashing" – quando projetos com impacto ambiental questionável são apresentados como sustentáveis apenas para aceder a melhores condições de financiamento.
A Comissão Europeia está a tentar resolver este problema através da Taxonomia Verde, um sistema de classificação que define quais as atividades económicas que podem ser consideradas ambientalmente sustentáveis. Mas a implementação em Portugal está a ser mais lenta do que o esperado, em parte devido à complexidade de adaptar regras concebidas para economias industriais a um país com um perfil económico tão específico como o nosso.
Enquanto os reguladores tentam criar ordem no caos, os bancos portugueses estão a desenvolver as suas próprias soluções. A Caixa Geral de Depósitos criou recentemente uma equipa dedicada exclusivamente à análise do impacto ambiental dos projetos que financia, enquanto o Novo Banco está a trabalhar com startups de tecnologia para desenvolver ferramentas que permitam monitorizar em tempo real a pegada de carbono das empresas que financia.
Esta evolução está a ter efeitos colaterais interessantes no mercado de trabalho. Especialistas em sustentabilidade, que há cinco anos tinham dificuldade em encontrar emprego fora de organizações não-governamentais, são agora recrutados agressivamente pelos departamentos de risco dos bancos. Os salários para estes profissionais subiram em média 25% nos últimos dois anos, segundo dados da Associação Portuguesa de Bancos.
O que significa tudo isto para o comum dos portugueses? Em primeiro lugar, que quem está a pensar em comprar casa ou carro deve perguntar ao seu banco sobre opções de financiamento sustentável – podem surpreender-se com as condições disponíveis. Em segundo lugar, que os depósitos que temos no banco estão cada vez mais a ser usados para financiar projetos com impacto ambiental positivo (ou negativo, dependendo do banco).
O futuro do crédito em Portugal está a ser redesenhado à nossa frente, quase sem darmos por isso. A próxima vez que negociar um empréstimo, lembre-se: não está apenas a discutir taxas de juro e prazos, está a votar no tipo de economia em que quer viver. E os bancos, que durante décadas foram vistos como instituições conservadoras e resistentes à mudança, estão a tornar-se, ironicamente, alguns dos principais agentes da transição para uma economia mais sustentável.
Esta transformação silenciosa do sistema financeiro português é talvez uma das histórias económicas mais importantes da década, ainda que pouco visível nos noticiários. À medida que o dinheiro muda de cor – do cinzento das indústrias tradicionais para o verde das tecnologias limpas – muda também a própria estrutura da nossa economia. E no centro desta mudança estão decisões quotidianas tomadas em salas de reunião de bancos, por pessoas que perceberam que o futuro do crédito não se escreve apenas em euros, mas também em toneladas de CO2 evitadas.
Nos últimos meses, os principais bancos portugueses anunciaram metas ambiciosas para a carteira de crédito sustentável. O BCP comprometeu-se a atingir 15 mil milhões de euros em financiamento verde até 2025, enquanto o Santander Portugal estabeleceu como objetivo que 40% do seu crédito à empresa tenha caraterísticas sustentáveis no mesmo período. Estas não são meras declarações de intenções – os números começam a aparecer nas demonstrações financeiras trimestrais, ainda que muitas vezes escondidos em notas de rodapé.
O que está a impulsionar esta mudança? A resposta tem várias camadas. Por um lado, a pressão regulatória do Banco Central Europeu, que através dos testes de stress climáticos está a forçar os bancos a quantificar os riscos das suas carteiras face à transição energética. Por outro, a procura crescente por parte das empresas, que veem no financiamento sustentável não apenas uma forma de reduzir custos, mas também de melhorar a sua imagem junto de consumidores cada vez mais conscientes.
Mas há um terceiro fator, menos visível mas igualmente importante: a concorrência entre bancos por uma nova geração de clientes. Os millennials e a geração Z, que começam agora a constituir famílias e a fazer investimentos significativos, mostram-se muito mais sensíveis às questões ambientais do que as gerações anteriores. Para captar estes clientes, os bancos precisam de oferecer mais do que taxas de juro competitivas – precisam de alinhar os seus valores com os dos seus clientes.
Esta corrida ao crédito verde está a criar oportunidades inesperadas. Pequenas e médias empresas que investem em eficiência energética ou em processos de produção mais limpos estão a conseguir condições de financiamento que há dois anos seriam impensáveis. Um fabricante de cortiça no Alentejo conseguiu recentemente um empréstimo com uma taxa 0,5 pontos percentuais abaixo do mercado por comprometer-se a reduzir o consumo de água em 30% nos próximos três anos.
No entanto, nem tudo são rosas neste novo mundo do financiamento sustentável. A falta de padrões uniformes para classificar o que é ou não é "verde" está a criar confusão no mercado. Um projeto pode ser considerado sustentável por um banco e rejeitado por outro, dependendo dos critérios utilizados. Esta fragmentação dificulta a comparação entre ofertas e pode levar a situações de "greenwashing" – quando projetos com impacto ambiental questionável são apresentados como sustentáveis apenas para aceder a melhores condições de financiamento.
A Comissão Europeia está a tentar resolver este problema através da Taxonomia Verde, um sistema de classificação que define quais as atividades económicas que podem ser consideradas ambientalmente sustentáveis. Mas a implementação em Portugal está a ser mais lenta do que o esperado, em parte devido à complexidade de adaptar regras concebidas para economias industriais a um país com um perfil económico tão específico como o nosso.
Enquanto os reguladores tentam criar ordem no caos, os bancos portugueses estão a desenvolver as suas próprias soluções. A Caixa Geral de Depósitos criou recentemente uma equipa dedicada exclusivamente à análise do impacto ambiental dos projetos que financia, enquanto o Novo Banco está a trabalhar com startups de tecnologia para desenvolver ferramentas que permitam monitorizar em tempo real a pegada de carbono das empresas que financia.
Esta evolução está a ter efeitos colaterais interessantes no mercado de trabalho. Especialistas em sustentabilidade, que há cinco anos tinham dificuldade em encontrar emprego fora de organizações não-governamentais, são agora recrutados agressivamente pelos departamentos de risco dos bancos. Os salários para estes profissionais subiram em média 25% nos últimos dois anos, segundo dados da Associação Portuguesa de Bancos.
O que significa tudo isto para o comum dos portugueses? Em primeiro lugar, que quem está a pensar em comprar casa ou carro deve perguntar ao seu banco sobre opções de financiamento sustentável – podem surpreender-se com as condições disponíveis. Em segundo lugar, que os depósitos que temos no banco estão cada vez mais a ser usados para financiar projetos com impacto ambiental positivo (ou negativo, dependendo do banco).
O futuro do crédito em Portugal está a ser redesenhado à nossa frente, quase sem darmos por isso. A próxima vez que negociar um empréstimo, lembre-se: não está apenas a discutir taxas de juro e prazos, está a votar no tipo de economia em que quer viver. E os bancos, que durante décadas foram vistos como instituições conservadoras e resistentes à mudança, estão a tornar-se, ironicamente, alguns dos principais agentes da transição para uma economia mais sustentável.
Esta transformação silenciosa do sistema financeiro português é talvez uma das histórias económicas mais importantes da década, ainda que pouco visível nos noticiários. À medida que o dinheiro muda de cor – do cinzento das indústrias tradicionais para o verde das tecnologias limpas – muda também a própria estrutura da nossa economia. E no centro desta mudança estão decisões quotidianas tomadas em salas de reunião de bancos, por pessoas que perceberam que o futuro do crédito não se escreve apenas em euros, mas também em toneladas de CO2 evitadas.