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O labirinto dos créditos ao consumo: como os portugueses estão a pagar mais por menos

Num país onde o salário médio ronda os 1.400 euros, mas onde um simples crédito pessoal pode chegar a ter uma TAEG de 15%, os portugueses estão a navegar num mar de números que poucos compreendem. As prateleiras virtuais dos bancos e financeiras estão repletas de produtos com nomes sedutores – 'crédito fácil', 'solução rápida', 'dinheiro imediato' – mas os contratos escondem letras miúdas que transformam sonhos em pesadelos financeiros.

A verdade é que Portugal tem uma das taxas de esforço mais elevadas da Europa. Segundo dados do Banco de Portugal, as famílias portuguesas dedicam quase 8% do seu rendimento disponível ao pagamento de juros. Parece pouco? Multiplique por 12 meses e terá quase um salário extra a desaparecer em juros. E isto sem contar com o capital emprestado.

O fenómeno é particularmente preocupante entre os jovens. A geração que cresceu com smartphones e redes sociais parece ter desenvolvido uma relação perigosa com o crédito. As campanhas publicitárias, muitas vezes disfarçadas de 'conselhos financeiros' nas redes sociais, vendem a ideia de que tudo é possível desde que se tenha um plano de pagamentos. O que não explicam é que esse plano pode durar mais do que o próprio produto financiado.

Mas o problema não está apenas nos consumidores. O sistema financeiro português criou um ecossistema onde o crédito ao consumo se tornou um negócio demasiado lucrativo para ser questionado. Enquanto os depósitos a prazo mal chegam aos 1% de juro, os créditos pessoais podem ultrapassar os 10%. A matemática é simples: quem poupa perde, quem pede emprestado paga caríssimo.

Nos últimos meses, surgiu uma nova ameaça: as fintechs de crédito rápido. Estas empresas, muitas vezes sediadas no estrangeiro, oferecem processos de aprovação em minutos, sem perguntas inconvenientes sobre a situação financeira do cliente. O que parece uma solução milagrosa transforma-se rapidamente numa armadilha, com juros que podem ultrapassar os 20% anuais e comissões escondidas em cada renovação.

A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) tem emitido alertas, mas a verdade é que a regulação anda sempre atrás da inovação financeira. Enquanto os supervisores analisam um produto, já surgiram três novos no mercado. E os consumidores, deslumbrados com a facilidade de acesso, assinam contratos que não compreendem completamente.

Há, no entanto, sinais de mudança. Alguns bancos começaram a oferecer produtos mais transparentes, com simuladores que mostram claramente o custo total do crédito. As associações de defesa do consumidor têm ganho batalhas importantes nos tribunais, conseguindo anular cláusulas abusivas em contratos de crédito. E o Banco de Portugal tem reforçado as exigências de informação aos clientes.

Mas a verdadeira revolução pode estar a chegar de onde menos se espera: da educação financeira. Projetos nas escolas, workshops em empresas e conteúdos nas redes sociais estão a criar uma nova geração de consumidores mais informados. Pessoas que sabem calcular a TAEG, que comparam ofertas antes de assinar e que entendem que o crédito não é um rendimento extra, mas uma dívida que terá de ser paga.

O caminho é longo e cheio de obstáculos. As tentações do consumo imediato continuam a ser poderosas, especialmente numa sociedade que valoriza o ter mais do que o ser. Mas cada português que aprende a ler um contrato de crédito, que questiona as condições oferecidas e que procura alternativas mais baratas, está a contribuir para um sistema financeiro mais justo.

No final, a questão não é se devemos usar crédito – numa economia moderna, o crédito é uma ferramenta essencial. A questão é como usá-lo de forma inteligente, responsável e sustentável. Porque, como diz o velho provérbio financeiro: 'quem compra o que não precisa, acaba por vender o que precisa'.

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