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O som esquecido: como o ruído do dia a dia está a roubar a nossa saúde sem que demos conta

Há um invasor silencioso nas nossas vidas que poucos conseguem identificar. Não vem com aviso prévio, não toca à campainha, mas instala-se nos nossos ouvidos e, pior, no nosso corpo inteiro. Estamos a falar do ruído ambiental – aquele zumbido constante das cidades, o ronronar dos aparelhos de ar condicionado, o martelar das obras na rua ao lado. E o preço que pagamos vai muito além do incómodo momentâneo.

Num estudo recente da Universidade do Porto, investigadores descobriram que habitantes de zonas com níveis de ruído acima dos 55 decibéis – o equivalente a uma conversa normal – têm 30% mais probabilidade de desenvolver problemas cardiovasculares. O corpo reage ao barulho como se fosse uma ameaça, libertando hormonas de stress que, com o tempo, desgastam artérias e aumentam a pressão arterial. É como viver em constante estado de alerta, mesmo quando dormimos.

Mas o mais preocupante é que muitos de nós nem sequer damos conta do problema. A perda auditiva induzida por ruído é traiçoeira – começa com frequências que não usamos no dia a dia e só nos apercebemos quando já é tarde. O som dos pássaros a cantar é o primeiro a desaparecer, seguido das consoantes mais suaves como 's' e 'f'. As conversas em restaurantes tornam-se exercícios de adivinhação, e o isolamento social começa a instalar-se.

E aqui surge uma ironia cruel: enquanto tentamos proteger os nossos ouvidos com auscultadores de última geração, estamos muitas vezes a expô-los a volumes ainda mais perigosos. Os fones de inserção, tão populares entre os mais jovens, podem atingir os 100 decibéis – o equivalente a um martelo pneumático a poucos metros de distância. A regra dos 60/60 (60% do volume máximo durante 60 minutos) é ignorada pela maioria, com consequências que só se manifestarão daqui a uma década.

O local de trabalho tornou-se outro campo minado para a saúde auditiva. Os escritórios open space, tão na moda, são autênticas cacofonias que reduzem a produtividade em 66% segundo um estudo da ETH Zurique. E não falamos apenas de distração – o esforço constante para filtrar conversas paralelas e ruídos de teclados sobrecarrega o cérebro, levando à fadiga cognitiva que muitos confundem com preguiça ou falta de motivação.

Nas escolas, a situação não é melhor. Salas de aula com acústica deficiente fazem com que crianças percam até 25% do que o professor diz, especialmente aquelas com dificuldades auditivas ligeiras não diagnosticadas. O resultado? Notas mais baixas, frustração e, em casos extremos, diagnósticos errados de défice de atenção quando o problema está simplesmente nos ouvidos.

Mas há esperança no horizonte. Arquitetos e urbanistas começam a incorporar a 'acústica saudável' nos seus projetos. Materiais absorventes de som, jardins verticais que funcionam como barreiras naturais, zonas de silêncio obrigatórias em espaços públicos – pequenas revoluções que podem transformar a nossa relação com o ambiente sonoro.

A nível individual, a solução passa pela consciencialização. Fazer pausas auditivas durante o dia – cinco minutos de silêncio absoluto a cada duas horas – permite aos cílios do ouvido interno recuperarem. Usar proteção auditiva em concertos e eventos desportivos não é sinal de fraqueza, mas de inteligência. E o mais importante: fazer um check-up auditivo regular, tal como fazemos com a visão ou os dentes.

A verdade é que vivemos numa sociedade que glorifica o som – a música alta, o barulho das festas, o ruído das cidades como sinónimo de vitalidade. Mas esquecemo-nos que o silêncio não é vazio, é espaço. Espaço para pensar, para descansar, para ouvir não apenas com os ouvidos, mas com o corpo inteiro. Recuperar esse espaço pode ser a revolução de saúde pública mais silenciosa – e urgente – do nosso tempo.

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