Seguros em Portugal: o que os jornais económicos não contam sobre o mercado paralelo
Nos últimos meses, enquanto os principais meios de comunicação portugueses se concentravam nas flutuações do mercado segurador e nas novas regulamentações da ASF, uma realidade paralela ganhava forma nas periferias das cidades e nas zonas rurais. Este mercado informal de seguros, completamente à margem da supervisão oficial, movimenta valores que surpreenderiam até os analistas mais experientes.
A investigação começou num café de Alfama, onde um vendedor ambulante oferecia "proteção completa" para estabelecimentos comerciais por metade do preço das seguradoras tradicionais. O contrato? Um aperto de mão e um pagamento em dinheiro vivo. Esta não é uma exceção, mas sim uma prática que se espalha por todo o país, especialmente entre pequenos comerciantes e proprietários de veículos mais antigos.
O fenómeno ganhou proporções alarmantes durante a pandemia, quando muitas famílias viram os seus rendimentos diminuírem drasticamente. A necessidade de cortar custos levou milhares de portugueses a procurar alternativas aos seguros obrigatórios, criando uma rede subterrânea de "mediadores informais" que operam através de grupos de WhatsApp e redes sociais fechadas.
Num armazém abandonado na Margem Sul, encontramos um desses operadores, que prefere ser identificado apenas como "Rui". O seu escritório consiste numa mesa dobrável e três telemóveis que não param de tocar. "As pessoas não querem burocracia, querem proteção rápida e barata", explica, enquanto atende uma chamada de um cliente que precisa de segurar uma carrinha de 25 anos. Em quinze minutos, o negócio está fechado - sem perguntas sobre o histórico do condutor, sem inspeção ao veículo.
Mas o que acontece quando ocorre um sinistro? Aí a realidade mostra a sua face mais cruel. Maria, dona de uma mercearia em Braga, descobriu da pior maneira que o seu "seguro contra incêndio" não valia o papel em que estava escrito (que, aliás, nem existia). Quando um curto-circuito destruiu parte do seu estabelecimento, o mediador desapareceu e o número de telefone deixou de funcionar. A sua história repete-se dezenas de vezes por mês em esquadras de polícia por todo o país.
As autoridades reconhecem o problema, mas admitem dificuldades no combate a estas práticas. "Operam na fronteira do legal e do ilegal", explica uma fonte da ASF que pediu anonimato. "Muitas vezes, quando intervimos, eles simplesmente dissolvem-se e reaparecem noutra localidade com um nome diferente."
O digital trouxe novas dimensões a este mercado paralelo. Grupos no Telegram e no Signal oferecem desde seguros de saúde "alternativos" até proteção para eventos sociais, tudo fora do radar das autoridades. A linguagem é codificada - "proteção familiar" significa seguro de vida, "cuidados preventivos" refere-se a seguros de saúde.
Curiosamente, este mercado informal está a forçar as seguradoras tradicionais a repensarem os seus modelos. Algumas começaram a oferecer produtos mais flexíveis e pagamentos semanais, numa tentativa de recuperar este segmento da população. Mas a desconfiança nas instituições financeiras, agravada pelos anos de crise, mantém muitos clientes no circuito paralelo.
A solução, segundo especialistas contactados para esta reportagem, passa por uma abordagem dupla: por um lado, maior fiscalização e penalizações mais severas para os operadores informais; por outro, educação financeira que explique os riscos reais de operar sem cobertura legal. Enquanto isso não acontecer, o mercado paralelo continuará a crescer, alimentado pela necessidade imediata e pela ilusão de poupança.
Esta realidade paralela diz mais sobre a economia portuguesa do que qualquer relatório oficial. Revela uma população que, pressionada financeiramente, encontra formas criativas (e arriscadas) de sobreviver. E coloca uma questão incómoda: até que ponto o sistema formal está a falhar aqueles que mais precisam de proteção?
A investigação começou num café de Alfama, onde um vendedor ambulante oferecia "proteção completa" para estabelecimentos comerciais por metade do preço das seguradoras tradicionais. O contrato? Um aperto de mão e um pagamento em dinheiro vivo. Esta não é uma exceção, mas sim uma prática que se espalha por todo o país, especialmente entre pequenos comerciantes e proprietários de veículos mais antigos.
O fenómeno ganhou proporções alarmantes durante a pandemia, quando muitas famílias viram os seus rendimentos diminuírem drasticamente. A necessidade de cortar custos levou milhares de portugueses a procurar alternativas aos seguros obrigatórios, criando uma rede subterrânea de "mediadores informais" que operam através de grupos de WhatsApp e redes sociais fechadas.
Num armazém abandonado na Margem Sul, encontramos um desses operadores, que prefere ser identificado apenas como "Rui". O seu escritório consiste numa mesa dobrável e três telemóveis que não param de tocar. "As pessoas não querem burocracia, querem proteção rápida e barata", explica, enquanto atende uma chamada de um cliente que precisa de segurar uma carrinha de 25 anos. Em quinze minutos, o negócio está fechado - sem perguntas sobre o histórico do condutor, sem inspeção ao veículo.
Mas o que acontece quando ocorre um sinistro? Aí a realidade mostra a sua face mais cruel. Maria, dona de uma mercearia em Braga, descobriu da pior maneira que o seu "seguro contra incêndio" não valia o papel em que estava escrito (que, aliás, nem existia). Quando um curto-circuito destruiu parte do seu estabelecimento, o mediador desapareceu e o número de telefone deixou de funcionar. A sua história repete-se dezenas de vezes por mês em esquadras de polícia por todo o país.
As autoridades reconhecem o problema, mas admitem dificuldades no combate a estas práticas. "Operam na fronteira do legal e do ilegal", explica uma fonte da ASF que pediu anonimato. "Muitas vezes, quando intervimos, eles simplesmente dissolvem-se e reaparecem noutra localidade com um nome diferente."
O digital trouxe novas dimensões a este mercado paralelo. Grupos no Telegram e no Signal oferecem desde seguros de saúde "alternativos" até proteção para eventos sociais, tudo fora do radar das autoridades. A linguagem é codificada - "proteção familiar" significa seguro de vida, "cuidados preventivos" refere-se a seguros de saúde.
Curiosamente, este mercado informal está a forçar as seguradoras tradicionais a repensarem os seus modelos. Algumas começaram a oferecer produtos mais flexíveis e pagamentos semanais, numa tentativa de recuperar este segmento da população. Mas a desconfiança nas instituições financeiras, agravada pelos anos de crise, mantém muitos clientes no circuito paralelo.
A solução, segundo especialistas contactados para esta reportagem, passa por uma abordagem dupla: por um lado, maior fiscalização e penalizações mais severas para os operadores informais; por outro, educação financeira que explique os riscos reais de operar sem cobertura legal. Enquanto isso não acontecer, o mercado paralelo continuará a crescer, alimentado pela necessidade imediata e pela ilusão de poupança.
Esta realidade paralela diz mais sobre a economia portuguesa do que qualquer relatório oficial. Revela uma população que, pressionada financeiramente, encontra formas criativas (e arriscadas) de sobreviver. E coloca uma questão incómoda: até que ponto o sistema formal está a falhar aqueles que mais precisam de proteção?