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Seguro para animais exóticos: o que os tutores de furões, coelhos e aves precisam de saber

Num consultório veterinário de Lisboa, a Dra. Sofia observa um furão chamado Loki com um ar preocupado. O animal, que chegou com uma infeção respiratória, precisará de vários dias internado. O tutor, um jovem arquiteto, pergunta o preço do tratamento enquanto acaricia a gaiola. Quando ouve o valor, empalidece. Esta cena, cada vez mais comum nas clínicas portuguesas, revela uma lacuna no mundo dos seguros para animais: a cobertura para espécies exóticas.

Enquanto os seguros para cães e gatos se tornaram relativamente comuns, os tutores de furões, coelhos, aves, répteis e outros animais não convencionais navegam num mar de incertezas. A maioria das seguradoras limita-se aos 'tradicionais' cães e gatos, deixando cerca de 15% dos lares portugueses com animais exóticos sem opções adequadas.

A bióloga Marta Silva, que estuda o comportamento de animais exóticos há uma década, explica: 'Muitas pessoas adotam coelhos pensando que são animais de baixa manutenção, mas desenvolvem problemas dentários complexos que exigem cirurgias especializadas. Um único tratamento pode ultrapassar os 500 euros.' Os furões, populares pela sua personalidade brincalhona, são propensos a doenças endócrinas que requerem acompanhamento vitalício.

No mercado português, apenas duas seguradoras oferecem planos que incluem explicitamente animais exóticos, e mesmo essas têm restrições significativas. A PetCare Seguros, por exemplo, cobre apenas furões e coelhos, excluindo aves e répteis. Já a AnimalProtect inclui mais espécies, mas exige um certificado de saúde veterinário emitido nos últimos 30 dias.

O veterinário especializado em exóticos, Dr. Ricardo Mendes, partilha um caso revelador: 'Atendi um papagaio-cinzento africano com 25 anos que desenvolveu uma doença hepática. O tratamento custou mais de 800 euros. Os donos, uma reformada e o seu marido, tiveram de pedir um empréstimo.' Segundo ele, muitos tutores acabam por optar pela eutanásia quando confrontados com custos elevados.

A legislação portuguesa não ajuda. Enquanto países como o Reino Unido têm seguros específicos para animais exóticos há anos, Portugal mantém-se atrasado. A Associação Portuguesa de Seguradores reconhece o problema, mas alega 'falta de dados estatísticos sobre doenças em espécies exóticas' como principal obstáculo.

Curiosamente, os próprios tutores contribuem para este ciclo. Muitos não consideram segurar animais como hamsters ou periquitos, considerando-os 'baratos de substituir'. Esta mentalidade ignora não só o vínculo emocional, mas também o facto de que alguns répteis podem viver mais de 20 anos e desenvolver condições crónicas dispendiosas.

Nas redes sociais, grupos de tutores de animais exóticos organizam-se para partilhar dicas. A página 'Exóticos Portugal' no Facebook tem mais de 5.000 membros que trocam informações sobre veterinários acessíveis e criam 'fundos de emergência' comunitários. 'Juntamos 10 euros por mês cada um', explica a administradora do grupo, Carla. 'Quando alguém precisa, usamos o fundo.'

A solução pode estar na tecnologia. Startups europeias começam a desenvolver seguros personalizados baseados em algoritmos que analisam a espécie, idade e histórico médico do animal. Em Espanha, a ExoPet já oferece cobertura para mais de 50 espécies diferentes, com preços que variam conforme o risco.

Enquanto isso, os veterinários recomendam medidas preventivas. 'Para um coelho, investir numa dieta adequada e check-ups anuais pode prevenir 70% dos problemas comuns', afirma a Dra. Sofia. Para répteis, o controlo rigoroso da temperatura e humidade do terrário evita muitas infeções.

O futuro pode trazer mudanças. A Petição Pública 123/XIV, entregue na Assembleia da República, pede a criação de um plano nacional de saúde animal que inclua espécies exóticas. Enquanto não avança, os tutores continuam entre a paixão pelos seus animais incomuns e o medo das contas do veterinário.

Num apartamento no Porto, Maria acaricia o seu ouriço-pigmeu africano, Quico. 'Ele é família', diz, enquanto o animal fareja o ar curiosamente. 'Merece os mesmos cuidados que qualquer outro membro da família.' A questão que permanece é: quantos mais casos como o de Loki, o furão, serão necessários para que o mercado português acorde para esta realidade?

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