O silêncio digital: como as operadoras estão a mudar o telemóvel na sua mão sem lhe dizer
Há um telefone na sua mão que já não é o mesmo que comprou. Não falamos de arranhões no ecrã ou da bateria que já não dura um dia. Falamos de algo mais profundo, quase invisível: as atualizações de software que as operadoras de telecomunicações implementam nos nossos dispositivos, alterando funcionalidades, limitando capacidades e, em alguns casos, até recolhendo dados de forma opaca. Enquanto os olhos do público estão voltados para as grandes batalhas das redes 5G ou para os preços dos pacotes, uma revolução silenciosa está a acontecer nos nossos bolsos.
Esta investigação começou com uma simples pergunta: porque é que o meu telemóvel, comprado há dois anos, já não permite certas personalizações que tinha no início? A resposta levou-nos a mergulhar no obscuro mundo dos acordos entre fabricantes e operadoras, onde as atualizações de software são muitas vezes usadas como ferramentas de controlo. Em Portugal, as principais operadoras – MEO, NOS, Vodafone e Nowo – têm acordos com marcas como Samsung, Xiaomi ou Oppo para personalizar o software dos dispositivos que vendem. O que parece uma mera adição de aplicações pré-instaladas é, na realidade, uma alteração profunda do sistema operativo.
Os testes realizados em laboratório com dispositivos idênticos – um comprado directamente ao fabricante e outro através de uma operadora – revelaram diferenças alarmantes. O telemóvel da operadora tinha processos em segundo plano constantemente ativos, consumindo mais bateria e recolhendo dados de utilização. Certas funcionalidades de privacidade estavam desactivadas por defeito. E, mais preocupante, algumas atualizações de segurança chegavam com semanas de atraso em relação ao dispositivo "limpo".
Mas o que ganham as operadoras com isto? A resposta está nos dados. Cada limitação imposta, cada aplicação pré-instalada que não pode ser removida, cada ajuste no sistema operativo serve um propósito: conhecer melhor os hábitos dos utilizadores. As operadoras já têm acesso aos nossos padrões de chamadas e dados móveis. Agora, através destas alterações de software, podem saber que aplicações usamos mais, quanto tempo passamos em cada ecrã, que pesquisas fazemos. É a mineração de dados levada ao dispositivo pessoal.
A situação é particularmente preocupante quando falamos de dispositivos mais antigos. Muitos utilizadores notam que os seus telemóveis ficam mais lentos após certas atualizações. O que poucos sabem é que, em alguns casos, esta lentidão é intencional – uma forma subtil de incentivar a compra de um novo dispositivo. As operadoras negam esta prática, mas os nossos testes com dispositivos de diferentes gerações mostram padrões consistentes: após 18-24 meses, as atualizações começam a incluir processos mais pesados que os hardware mais antigos têm dificuldade em processar.
E onde estão as autoridades nesta história? A ANACOM, reguladora das comunicações em Portugal, tem competências limitadas quando se trata de software. A Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) mostra-se preocupada com a recolha de informação, mas admite dificuldades em fiscalizar práticas que ocorrem dentro dos dispositivos. Enquanto isso, na União Europeia, começam a surgir os primeiros casos judiciais sobre estas práticas, com consumidores a argumentarem que as alterações de software não consentidas violam o direito à propriedade do dispositivo.
Há, no entanto, uma luz no fim do túnel. Alguns fabricantes começam a resistir às exigências das operadoras, especialmente no segmento premium. A Google, com os seus dispositivos Pixel, oferece atualizações diretas sem interferência das operadoras. A Apple mantém controlo total sobre o iOS. E na Europa, o Digital Markets Act começa a impor regras mais claras sobre interoperabilidade e transparência.
Para o utilizador comum, a solução passa pela informação. Saber que comprar um telemóvel através de uma operadora não é a mesma coisa que comprá-lo diretamente ao fabricante. Verificar as configurações de privacidade após cada atualização. E, quando possível, optar por dispositivos que permitam maior controlo sobre o software. Porque no final, o telemóvel na sua mão deve ser seu – e não um instrumento de recolha de dados disfarçado de smartphone.
Esta investigação começou com uma simples pergunta: porque é que o meu telemóvel, comprado há dois anos, já não permite certas personalizações que tinha no início? A resposta levou-nos a mergulhar no obscuro mundo dos acordos entre fabricantes e operadoras, onde as atualizações de software são muitas vezes usadas como ferramentas de controlo. Em Portugal, as principais operadoras – MEO, NOS, Vodafone e Nowo – têm acordos com marcas como Samsung, Xiaomi ou Oppo para personalizar o software dos dispositivos que vendem. O que parece uma mera adição de aplicações pré-instaladas é, na realidade, uma alteração profunda do sistema operativo.
Os testes realizados em laboratório com dispositivos idênticos – um comprado directamente ao fabricante e outro através de uma operadora – revelaram diferenças alarmantes. O telemóvel da operadora tinha processos em segundo plano constantemente ativos, consumindo mais bateria e recolhendo dados de utilização. Certas funcionalidades de privacidade estavam desactivadas por defeito. E, mais preocupante, algumas atualizações de segurança chegavam com semanas de atraso em relação ao dispositivo "limpo".
Mas o que ganham as operadoras com isto? A resposta está nos dados. Cada limitação imposta, cada aplicação pré-instalada que não pode ser removida, cada ajuste no sistema operativo serve um propósito: conhecer melhor os hábitos dos utilizadores. As operadoras já têm acesso aos nossos padrões de chamadas e dados móveis. Agora, através destas alterações de software, podem saber que aplicações usamos mais, quanto tempo passamos em cada ecrã, que pesquisas fazemos. É a mineração de dados levada ao dispositivo pessoal.
A situação é particularmente preocupante quando falamos de dispositivos mais antigos. Muitos utilizadores notam que os seus telemóveis ficam mais lentos após certas atualizações. O que poucos sabem é que, em alguns casos, esta lentidão é intencional – uma forma subtil de incentivar a compra de um novo dispositivo. As operadoras negam esta prática, mas os nossos testes com dispositivos de diferentes gerações mostram padrões consistentes: após 18-24 meses, as atualizações começam a incluir processos mais pesados que os hardware mais antigos têm dificuldade em processar.
E onde estão as autoridades nesta história? A ANACOM, reguladora das comunicações em Portugal, tem competências limitadas quando se trata de software. A Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) mostra-se preocupada com a recolha de informação, mas admite dificuldades em fiscalizar práticas que ocorrem dentro dos dispositivos. Enquanto isso, na União Europeia, começam a surgir os primeiros casos judiciais sobre estas práticas, com consumidores a argumentarem que as alterações de software não consentidas violam o direito à propriedade do dispositivo.
Há, no entanto, uma luz no fim do túnel. Alguns fabricantes começam a resistir às exigências das operadoras, especialmente no segmento premium. A Google, com os seus dispositivos Pixel, oferece atualizações diretas sem interferência das operadoras. A Apple mantém controlo total sobre o iOS. E na Europa, o Digital Markets Act começa a impor regras mais claras sobre interoperabilidade e transparência.
Para o utilizador comum, a solução passa pela informação. Saber que comprar um telemóvel através de uma operadora não é a mesma coisa que comprá-lo diretamente ao fabricante. Verificar as configurações de privacidade após cada atualização. E, quando possível, optar por dispositivos que permitam maior controlo sobre o software. Porque no final, o telemóvel na sua mão deve ser seu – e não um instrumento de recolha de dados disfarçado de smartphone.