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O segredo sujo dos créditos rápidos: como as fintechs estão a reinventar a usura digital

Num pequeno escritório em Lisboa, um ecrã mostra números que fariam corar qualquer agiota do século passado. Taxas anuais equivalentes a 1.800%. Juros compostos que transformam 500 euros num pesadelo de 3.000 euros em menos de um ano. Esta não é uma cena de um filme sobre o submundo financeiro - é a realidade diária das chamadas 'fintechs de crédito rápido' que proliferam nas aplicações dos smartphones portugueses.

A investigação do Jornal de Negócios revelou que, enquanto os bancos tradicionais apertam o cerco aos empréstimos pessoais, dezenas de plataformas digitais oferecem dinheiro 'em 15 minutos' sem perguntas inconvenientes. O que não dizem é que os juros disparam após o período de carência, criando uma armadilha da qual poucos conseguem escapar.

'Chamam-lhe inclusão financeira, mas é pura exploração digital', denuncia Maria Silva, economista da Universidade do Porto que estuda o fenómeno há três anos. 'Estas empresas aproveitam-se da urgência e do desespero das pessoas, muitas vezes jovens adultos com primeiro emprego precário ou reformados com pensões baixas.'

A estratégia é simples e diabólica: anúncios agressivos nas redes sociais prometem 'dinheiro fácil sem burocracia'. O processo de aprovação é tão rápido que muitos nem sequer lêem as letras pequenas. E quando o primeiro pagamento falha, começam os juros estratosféricos e as chamadas diárias de cobrança.

O Observador documentou casos de assédio que incluíam contactos a familiares e empregadores, violando claramente as leis de proteção de dados. 'Recebi mensagens a ameaçar contar ao meu patrão que tinha dívidas', relata um jovem de 28 anos que pediu anonimato. 'Fiquei envergonhado e pedi outro empréstimo para pagar o primeiro. Foi o início do fim.'

O mais preocupante, segundo a análise da ECO Sapo, é que muitas destas plataformas operam em zonas cinzentas da legislação. Registam-se em países com regulação mais flexível, como Malta ou Chipre, mas direcionam toda a sua publicidade ao mercado português. Quando os clientes tentam reclamar, deparam-se com burocracias internacionais que tornam quase impossível qualquer ação legal.

'É o novo colonialismo financeiro', acusa Pedro Martins, advogado especializado em direito do consumo. 'Empresas estrangeiras vêm buscar os portugueses mais vulneráveis, sugam-lhes o pouco dinheiro que têm e desaparecem quando as coisas apertam. As autoridades nacionais pouco podem fazer além de alertar.'

Mas há uma luz no fim do túnel. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários começou a apertar a vigilância sobre estas operações. No último trimestre, três plataformas foram obrigadas a suspender atividades em Portugal por práticas abusivas. Ainda é pouco, mas é um começo.

Enquanto isso, especialistas aconselham: desconfie de ofertas demasiado boas para ser verdade. Leia sempre o contrato até à última vírgula. E lembre-se que, no mundo financeiro como na vida, não há almoços grátis. O dinheiro rápido hoje pode significar anos de dívida amanhã.

A verdadeira revolução fintech não deveria ser sobre como emprestar mais rápido, mas sobre como educar melhor. Enquanto a literacia financeira não chegar a todas as camadas da sociedade, os predadores digitais continuarão a festejar à custa da ignorância alheia.

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