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O lado oculto da educação em Portugal: o que os números não contam

Há uma história que se desenrola nas salas de aula portuguesas que os relatórios oficiais não conseguem capturar. Enquanto o Ministério da Educação celebra a subida nas estatísticas do PISA, há professores que partilham histórias de alunos que chegam à escola sem comer, de salas superlotadas onde o ensino individualizado é uma miragem, e de escolas que funcionam com equipamentos que já deviam ter sido reformados há uma década.

Nas escolas do interior, a realidade é ainda mais dura. Falei com uma diretora de agrupamento no Alentejo que me confessou, com voz cansada: "Temos turmas com alunos do 5º ao 9º ano na mesma sala. Um professor, cinco anos letivos diferentes. Como é que se pode chamar a isto educação de qualidade?" Esta realidade contrasta com os comunicados oficiais que celebram a "democratização do acesso ao ensino".

A obsessão pelos rankings criou uma distorção perigosa no sistema. Visitei escolas onde os alunos são treinados especificamente para os testes nacionais, enquanto outras áreas do desenvolvimento são negligenciadas. "Ensino para o teste, não para a vida", admitiu-me um professor de Matemática do Porto. "Se não tivermos bons resultados no ranking, perdem-se alunos para escolas concorrentes."

A formação de professores tornou-se um campo de batalha ideológico. Enquanto algumas instituições defendem métodos tradicionais, outras abraçaram pedagogias mais modernas sem a devida preparação. O resultado? Uma geração de educadores confusa sobre qual caminho seguir. Uma professora do 1º ciclo em Lisboa contou-me: "Cada ano letivo traz uma nova moda pedagógica. Não temos tempo para dominar uma metodologia antes que apareça outra."

A tecnologia nas escolas portuguesas é uma história de duas realidades. Enquanto algumas escolas urbanas têm equipamentos de última geração, muitas outras funcionam com computadores que já deviam estar em museus. Um coordenador TIC de uma escola em Braga mostrou-me o seu "laboratório de informática": "Estes computadores têm 12 anos. São mais velhos do que os alunos que os usam."

O ensino profissional continua a ser o parente pobre do sistema educativo. Apesar dos discursos políticos sobre a sua importância, a realidade é que muitos cursos profissionais funcionam com equipamentos obsoletos e professores sobrecarregados. Um formador de um curso de eletricidade em Coimbra desabafou: "Ensino tecnologia dos anos 90 porque é o que temos. Os meus alunos saem daqui desatualizados."

A inclusão tornou-se uma palavra vazia em muitas escolas. Falei com pais de crianças com necessidades educativas especiais que lutam diariamente por apoios que nunca chegam. "O meu filho tem direito a um acompanhante, mas na prática passa a maior parte do tempo sozinho", contou-me uma mãe de Viseu. "A lei existe no papel, mas não na realidade das escolas."

Os diretores de agrupamento enfrentam desafios que vão muito além da gestão pedagógica. Muitos tornaram-se gestores de orçamentos cada vez mais reduzidos, mediadores de conflitos entre professores e pais, e burocratas que passam mais tempo a preencher formulários do que a supervisionar o ensino. Um diretor no Algarve resumiu: "Sou contabilista, psicólogo, advogado e, quando sobra tempo, educador."

A avaliação dos professores transformou-se num sistema kafkiano de metas e indicadores que pouco refletem a qualidade do ensino. Um professor com 30 anos de carreira em Évora partilhou: "Passo mais tempo a justificar o que faço do que a fazer. A burocracia matou a paixão pelo ensino."

As assimetrias regionais continuam a marcar o sistema educativo português. Enquanto nas áreas metropolitanas os alunos têm acesso a múltiplas atividades extracurriculares e equipamentos modernos, no interior muitas escolas nem sequer têm aquecimento adequado. Uma professora de uma escola rural na Beira Interior descreveu: "No inverno, os alunos usam casacos na sala de aula. As mãos tremem quando escrevem."

O grande paradoxo da educação portuguesa é este: nunca tivemos tantos diplomados, mas também nunca houve tanta insatisfação entre professores, alunos e pais. O sistema melhorou nos números, mas piorou na experiência quotidiana. Enquanto isso, o debate público continua centrado em questões periféricas, ignorando os problemas estruturais que minam a qualidade do ensino.

Há esperança, no entanto. Conheci projetos locais que estão a fazer a diferença, professores que continuam a lutar contra todas as adversidades, e comunidades que se unem para apoiar as suas escolas. São estas histórias de resiliência que mostram que, apesar de tudo, a educação em Portugal ainda tem alma.

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