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A revolução silenciosa dos cidadãos-produtores: como os portugueses estão a redefinir o mercado energético

Enquanto os olhos do país se voltam para as grandes centrais solares que pontuam o Alentejo ou os parques eólicos que dominam as serranias do norte, uma revolução muito mais subtil está a acontecer nas varandas, telhados e quintais de Portugal. São os cidadãos-produtores, uma legião crescente de portugueses que não se contenta em apenas consumir energia, mas que decidiu produzi-la, armazená-la e, em muitos casos, partilhá-la. Esta não é apenas uma história sobre painéis solares; é sobre como a tecnologia está a devolver o poder aos consumidores, desafiando décadas de modelo energético centralizado.

Nas traseiras de um prédio em Benfica, Maria João mostra com orgulho os seus oito painéis solares. "No primeiro ano, a conta da luz baixou 70%", conta, enquanto aponta para a aplicação no telemóvel que monitoriza em tempo real a produção. "Mas o mais interessante foi quando percebi que podia vender o excedente aos meus vizinhos." Maria João é uma das 150 mil unidades de pequena produção registadas em Portugal, um número que triplicou nos últimos três anos. O fenómeno é tão expressivo que já representa 7% da capacidade solar instalada no país, segundo dados da Direção-Geral de Energia e Geologia.

Esta democratização energética está a criar um mercado paralelo fascinante. Plataformas digitais como a Smart Watts ou a Luzboa funcionam como "bolsas de energia" onde os produtores domésticos negoceiam kilowatts-hora com consumidores próximos. "É o Uber da energia", brinca Ricardo Silva, fundador de uma destas startups. "Um vizinho produz mais do que precisa às 14h, outro precisa precisamente nessa hora para carregar o carro elétrico. Conectamos os dois, sem intermediários." O modelo, conhecido como peer-to-peer, está a ganhar tração especialmente em comunidades de vivendas e condomínios, onde a proximidade física reduz as perdas na rede.

Mas a verdadeira disrupção pode estar a acontecer nos armazenamentos. "Os painéis solares eram apenas metade da equação", explica engenheira Sofia Martins, especialista em sistemas de baterias domésticas. "Agora, com preços a cair 80% na última década, qualquer família pode ter uma 'central elétrica' na garagem." As baterias de ião-lítio, semelhantes às dos carros elétricos, permitem armazenar o excesso diurno para usar à noite, tornando as habitações quase autónomas. Em zonas rurais, onde as interrupções de fornecimento são mais frequentes, estas soluções estão a transformar-se em seguros contra apagões.

O fenómeno está a obrigar as tradicionais empresas do setor a repensarem os seus modelos de negócio. A EDP, por exemplo, já não vende apenas eletricidade - oferece pacotes completos que incluem painéis, baterias, carregadores para veículos elétricos e gestão inteligente do consumo. "De fornecedores de energia passamos a gestores de ecossistemas energéticos domésticos", admite um executivo da empresa que pediu anonimato. Esta mudança é profunda: em vez de faturar kilowatts-hora, as empresas começam a cobrar por serviços de eficiência e autonomia.

Nos bastidores, porém, persistem desafios regulatórios. O atual quadro legal ainda reflete um mundo onde a energia fluía numa só direção: das grandes centrais para os consumidores. "A rede elétrica foi desenhada para distribuir, não para receber energia de milhares de pontos", alerta o regulador ERSE num relatório recente. As regras para injetar excedentes na rede, os impostos sobre a autoconsumo e a burocracia para legalizar microproduções continuam a ser barreiras significativas. Associações do setor estimam que simplificações regulatórias poderiam duplicar o número de produtores domésticos em dois anos.

O que começou como um movimento de early adopters e ambientalistas tornou-se agora uma opção economicamente racional para a classe média. "O retorno do investimento num sistema solar com bateria é hoje entre 5 a 7 anos", calcula o consultor energético Pedro Almeida. "Com os preços da eletricidade a subirem consistentemente acima da inflação, é uma das poucas formas de as famílias se protegerem contra a volatilidade energética." Esta perceção está a criar um efeito de rede: cada instalação visível no bairro incentiva mais vizinhos a seguir o exemplo.

Talvez o aspeto mais interessante desta revolução seja psicológico. "As pessoas que produzem a sua própria energia tornam-se mais conscientes do consumo", observa a socióloga Inês Vieira, que estuda o fenómeno. "Monitorizam padrões, ajustam hábitos, educam os filhos sobre eficiência energética. Há uma reapropriação da relação com a energia que vai muito além da conta a pagar." Esta mudança cultural pode, a longo prazo, ser tão importante quanto a tecnológica.

Enquanto isso, nas periferias urbanas e nas aldeias, os telhados continuam a ganhar um brilho azulado. Cada painel instalado é um voto de confiança numa energia mais distribuída, mais resiliente e mais democrática. A revolução pode ser silenciosa - os painéis solares não fazem barulho - mas o seu impacto ressoa em cada conta de luz reduzida, em cada família que ganha autonomia, em cada comunidade que tece novas redes de partilha energética. Num país com tanto sol, talvez estejamos finalmente a aprender a colhê-lo não apenas em vastas centrais, mas também nos nossos próprios telhados.

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