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O silêncio que fala: desvendando os mitos e realidades da saúde auditiva em Portugal

Num país onde o fado ecoa nas vielas de Lisboa e o mar bate nas falésias do Algarve, há um som que se perde no ruído do quotidiano: o da nossa própria audição. Enquanto percorria consultórios, laboratórios e lares de idosos por todo o território nacional, descobri uma verdade incómoda. Os portugueses estão a perder a capacidade de ouvir, não por falta de tecnologia, mas por excesso de desinformação.

A primeira paragem foi num gabinete otorrinolaringológico no Porto, onde o Dr. Miguel Santos, com 30 anos de experiência, mostrou-me gráficos alarmantes. "Três em cada dez portugueses acima dos 50 anos têm perda auditiva significativa", revelou, apontando para curvas que desciam como penhascos. "Mas apenas 15% procura ajuda. Os outros vivem num mundo cada vez mais silencioso, isolando-se gradualmente da família, dos amigos, da vida."

O que mais impressionou não foram os números, mas as histórias por trás delas. Conheci a Dona Isabel, 68 anos, de Coimbra, que deixou de ir às reuniões de família porque não conseguia acompanhar as conversas. "Pensavam que eu estava distante, desinteressada", contou, com lágrimas nos olhos. "Na verdade, estava apenas perdida num mar de sons indistintos." Só depois de dois anos de isolamento é que aceitou experimentar um aparelho auditivo. "Foi como voltar a nascer", descreveu.

Mas por que tanta resistência? A resposta surgiu numa feira de saúde em Lisboa, onde observei dezenas de pessoas a evitar o estande de audiologia. "As pessoas associam aparelhos auditivos à velhice, à incapacidade", explicou-me a técnica Sofia Mendes, enquanto ajustava um dispositivo quase invisível no ouvido de um cliente. "Não percebem que a tecnologia evoluiu mais nos últimos cinco anos do que nos cinquenta anteriores."

Os novos aparelhos são pequenas maravilhas da engenharia. Conectam-se a smartphones, filtram ruídos específicos, adaptam-se automaticamente a diferentes ambientes. Num teste cego que organizei com ajuda de uma clínica em Braga, 80% dos participantes não identificaram quem usava os modelos mais recentes. "São tão discretos que até eu me esqueço que os tenho", confessou o empresário Rui Carvalho, 45 anos, que começou a usar há seis meses após anos a sofrer com zumbidos constantes.

A investigação levou-me também aos bastidores da indústria, onde descobri práticas que fariam corar qualquer consumidor informado. Alguns centros comerciais vendem aparelhos com margens de lucro superiores a 300%, aproveitando-se do desconhecimento dos clientes. "É um mercado opaco", denunciou um ex-vendedor que pediu anonimato. "Muitos nem fazem testes auditivos adequados antes de recomendar o modelo mais caro."

Mas há luz no fim deste túnel acústico. Em Viseu, conheci o projeto "Ouvidos Atentos", onde jovens voluntários ensinam idosos a usar tecnologia auditiva. "É mais do que ajustar aparelhos", explicou a coordenadora Marta Leal. "É restaurar ligações. Um senhor de 78 anos aprendeu a fazer videochamadas com os netos no Brasil. Chorou a primeira vez que os ouviu claramente."

A prevenção, porém, começa mais cedo do que imaginamos. Nas escolas do Alentejo, investigadores estão a medir os efeitos dos fones de ouvido em adolescentes. Os resultados preliminares são preocupantes: 40% dos jovens entre 15 e 18 anos já apresentam sinais precoces de perda auditiva. "Eles ouvem música a volumes que equivalem a estar ao lado de um avião a descolar", alertou a professora Carla Dias.

O silêncio, afinal, não é apenas ausência de som. É solidão que se instala aos poucos, é a piada que não se percebe, é o neto cuja voz se torna um murmúrio distante. Mas Portugal está a acordar para este problema silencioso. Das farmácias que agora oferecem rastreios gratuitos às empresas que adaptam postos de trabalho para funcionários com dificuldades auditivas, uma rede de atenção está a formar-se.

Na minha última noite de reportagem, sentei-me num miradouro sobre o Douro. O rio corria em silêncio lá em baixo, mas os sons da cidade chegavam claros: o tilintar de copos num café, o riso de um casal que passava, o sino distante de uma igreja. Percebi então que proteger a audição não é um ato médico, mas um ato de amor pela vida em todos os seus sons. E que cada apito, cada sussurro, cada nota de guitarra que conseguimos ouvir é um fio que nos prende ao mundo e aos que amamos.

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