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Seguros em Portugal: o que as seguradoras não contam sobre os seus prémios e coberturas

Num país onde quase todos temos pelo menos um seguro – automóvel, saúde, vida ou habitação –, poucos são os que realmente compreendem o que está por trás das letras miúdas das apólices. Enquanto as seguradoras apresentam campanhas publicitárias com sorrisos e promessas de tranquilidade, a realidade dos consumidores portugueses é muitas vezes marcada por aumentos inexplicáveis de prémios, exclusões de cobertura que só se descobrem na hora do sinistro, e processos de indemnização que se arrastam como novelas sem fim.

A investigação junto de várias fontes do setor revela que as seguradoras têm vindo a ajustar os seus modelos de risco de forma silenciosa, especialmente após os eventos climáticos extremos dos últimos anos. As cheias, os incêndios florestais e até a pandemia alteraram profundamente as probabilidades nos seus algoritmos. O resultado? Prémios mais altos para todos, mesmo para quem nunca acionou o seguro. Um gestor de uma grande seguradora, que pediu anonimato, confessa: 'O reajuste foi generalizado. Quem paga a conta são os clientes, mas tentamos diluir o impacto comunicando apenas os aumentos necessários por lei.'

Mas os problemas não se ficam pelos preços. As coberturas oferecidas estão cada vez mais espartanas. Muitas apólices de habitação, por exemplo, excluem danos causados por 'fenómenos naturais não especificados', uma vagueza que deixa os segurados em terra de ninguém quando a natureza prega uma partida. E no seguro automóvel, a moda das franquias obrigatórias cresce como cogumelos depois da chuva. Pagamos menos no momento, mas na hora da verdade, a fatura pode ser bem mais salgada.

A digitalização do setor trouxe conveniência, mas também novas armadilhas. As plataformas online, com os seus questionários aparentemente simples, escondem perguntas capciosas que podem invalidar a cobertura se não forem respondidas com a precisão de um relógio suíço. 'Declarou todos os condutores habituais?' parece uma questão inocente, mas esquecer-se de incluir o filho que conduz o carro duas vezes por mês pode significar a recusa de indemnização num acidente.

E o que dizer dos seguros de saúde? Aí, o labirinto é ainda mais complexo. As tabelas de preços dos serviços médicos variam dramaticamente entre seguradoras, e o que parece uma cobertura completa transforma-se num quebra-cabeças de copagamentos, períodos de carência e limites anuais. Um especialista em direito dos seguros alerta: 'Os portugueses compram saúde como quem compra um carro – olham para a prestação mensal, não para o manual de instruções. Depois, admiram-se quando a operação não está incluída.'

No meio deste cenário, surgem vozes a defender uma revolução no setor. Os seguros paramétricos, que pagam automaticamente quando certas condições são atingidas (como um determinado nível de precipitação ou velocidade do vento), começam a aparecer no mercado português. São mais transparentes, mas ainda um nicho para bolsos abastados. Paralelamente, as insurtechs prometem simplificar o incompreensível, usando inteligência artificial para personalizar apólices e acelerar indemnizações. Mas será que estas startups vão conseguir desafiar os gigantes tradicionais, ou serão engolidas por eles?

A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) tem aumentado a sua atividade fiscalizadora, aplicando multas recorde a seguradoras que violam os direitos dos consumidores. No entanto, o ritmo lento dos processos e a complexidade técnica das infrações fazem com que muitas práticas questionáveis continuem impunes. 'É um jogo do gato e do rato', admite um inspector da ASF. 'Eles arranjam sempre novas formas de contornar as regras.'

Para o consumidor comum, a solução passa por uma atitude mais proativa. Ler a apólice antes de assinar, não apenas os resumos bonitos; questionar os aumentos de prémio, exigindo justificação detalhada; e comparar ofertas não apenas pelo preço, mas pelas exclusões e limites de cobertura. Como diz um velho advogado especializado em seguros: 'A melhor apólice é a que se espera nunca usar, mas se precisar, que esteja realmente lá.'

O futuro dos seguros em Portugal dependerá desta consciencialização crescente dos consumidores, aliada a uma regulação mais eficaz e a inovações que coloquem as pessoas no centro. Até lá, convém lembrar que a letra miúda pode esconder surpresas ainda maiores do que os riscos que pretende cobrir.

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