O paradoxo solar português: quando o sol brilha mas os incentivos escurecem
Portugal tem mais de 300 dias de sol por ano, mas a energia solar continua a ser a prima pobre do nosso mix energético. Enquanto os nossos vizinhos espanhóis já ultrapassaram os 20 gigawatts de capacidade instalada, nós mal chegamos aos 3 gigawatts. Esta discrepância não é fruto do acaso, mas sim de uma teia complexa de burocracia, interesses instalados e oportunidades perdidas.
Os números contam uma história de potencial desperdiçado. De acordo com dados da Direção-Geral de Energia e Geologia, apenas 7% da eletricidade consumida em Portugal vem do sol. Um valor irrisório quando comparado com a nossa exposição solar, que é das mais elevadas da Europa. O que explica então este desfasamento entre o que temos e o que aproveitamos?
A resposta pode ser encontrada nos corredores da administração pública, onde os processos de licenciamento se arrastam por meses, quando não anos. Um produtor solar do Alentejo contou-me, sob condição de anonimato, que esperou 14 meses apenas pela licença de utilização do solo. "É como pedir autorização para respirar", desabafou. Enquanto isso, os prazos para cumprir as metas do Plano Nacional Energia e Clima 2030 aproximam-se perigosamente.
Mas a burocracia é apenas parte do problema. O verdadeiro obstáculo pode estar no modelo de negócio que privilegia os grandes players em detrimento dos pequenos produtores. As comunidades de energia renovável, que permitem aos cidadãos produzir e partilhar a sua própria energia, enfrentam barreiras técnicas e regulatórias que as tornam praticamente inviáveis. O resultado? Continuamos dependentes dos mesmos de sempre.
O setor financeiro também não ajuda. Os bancos portugueses ainda olham para os projetos solares como investimentos de alto risco, exigindo garantias que muitos pequenos investidores não conseguem fornecer. Enquanto na Alemanha ou na Holanda o cidadão comum pode financiar facilmente os seus painéis solares, em Portugal continua a ser um privilégio para quem tem capital próprio significativo.
Há, no entanto, sinais de mudança no horizonte. O programa RepowerEU da Comissão Europeia trouxe novos fundos e uma urgência renovada. As autarquias começam a perceber que o sol pode ser uma fonte de receita importante, especialmente nas regiões do interior onde o despovoamento é uma realidade. Em Mértola, por exemplo, a câmara municipal está a desenvolver um projeto que combina produção solar com agricultura regenerativa.
As oportunidades de negócio são múltiplas e vão muito além da simples produção de eletricidade. A agrivoltaica – que combina agricultura com produção solar – está a ganhar terreno, permitindo aos agricultores diversificar as suas fontes de rendimento. O hidrogénio verde, que depende da eletricidade renovável para ser produzido, pode tornar-se num dos nossos principais produtos de exportação.
Mas para que estas oportunidades se materializem, é preciso mudar a mentalidade. Temos de deixar de ver a energia solar como um custo e começarmos a vê-la como um investimento. Um investimento não só na descarbonização da nossa economia, mas também na criação de emprego qualificado e na redução da nossa dependência energética do exterior.
Os exemplos de sucesso existem e mostram que o caminho é possível. A Central Solar do Cercal, no Alentejo, não só produz eletricidade para 200 mil habitações como criou dezenas de postos de trabalho diretos e indiretos. Em Coruche, uma cooperativa de cidadãos está a desenvolver um projeto que vai permitir aos seus membros poupar até 30% na fatura da luz.
O que falta então? Coragem política para simplificar os processos, visão estratégica para aproveitar as sinergias entre diferentes setores e, acima de tudo, a compreensão de que a transição energética não é um custo, mas sim a maior oportunidade de desenvolvimento que Portugal tem nas próximas décadas.
Enquanto escrevo estas linhas, o sol brilha lá fora. A pergunta que fica é: quando é que vamos finalmente aprender a aproveitá-lo?
Os números contam uma história de potencial desperdiçado. De acordo com dados da Direção-Geral de Energia e Geologia, apenas 7% da eletricidade consumida em Portugal vem do sol. Um valor irrisório quando comparado com a nossa exposição solar, que é das mais elevadas da Europa. O que explica então este desfasamento entre o que temos e o que aproveitamos?
A resposta pode ser encontrada nos corredores da administração pública, onde os processos de licenciamento se arrastam por meses, quando não anos. Um produtor solar do Alentejo contou-me, sob condição de anonimato, que esperou 14 meses apenas pela licença de utilização do solo. "É como pedir autorização para respirar", desabafou. Enquanto isso, os prazos para cumprir as metas do Plano Nacional Energia e Clima 2030 aproximam-se perigosamente.
Mas a burocracia é apenas parte do problema. O verdadeiro obstáculo pode estar no modelo de negócio que privilegia os grandes players em detrimento dos pequenos produtores. As comunidades de energia renovável, que permitem aos cidadãos produzir e partilhar a sua própria energia, enfrentam barreiras técnicas e regulatórias que as tornam praticamente inviáveis. O resultado? Continuamos dependentes dos mesmos de sempre.
O setor financeiro também não ajuda. Os bancos portugueses ainda olham para os projetos solares como investimentos de alto risco, exigindo garantias que muitos pequenos investidores não conseguem fornecer. Enquanto na Alemanha ou na Holanda o cidadão comum pode financiar facilmente os seus painéis solares, em Portugal continua a ser um privilégio para quem tem capital próprio significativo.
Há, no entanto, sinais de mudança no horizonte. O programa RepowerEU da Comissão Europeia trouxe novos fundos e uma urgência renovada. As autarquias começam a perceber que o sol pode ser uma fonte de receita importante, especialmente nas regiões do interior onde o despovoamento é uma realidade. Em Mértola, por exemplo, a câmara municipal está a desenvolver um projeto que combina produção solar com agricultura regenerativa.
As oportunidades de negócio são múltiplas e vão muito além da simples produção de eletricidade. A agrivoltaica – que combina agricultura com produção solar – está a ganhar terreno, permitindo aos agricultores diversificar as suas fontes de rendimento. O hidrogénio verde, que depende da eletricidade renovável para ser produzido, pode tornar-se num dos nossos principais produtos de exportação.
Mas para que estas oportunidades se materializem, é preciso mudar a mentalidade. Temos de deixar de ver a energia solar como um custo e começarmos a vê-la como um investimento. Um investimento não só na descarbonização da nossa economia, mas também na criação de emprego qualificado e na redução da nossa dependência energética do exterior.
Os exemplos de sucesso existem e mostram que o caminho é possível. A Central Solar do Cercal, no Alentejo, não só produz eletricidade para 200 mil habitações como criou dezenas de postos de trabalho diretos e indiretos. Em Coruche, uma cooperativa de cidadãos está a desenvolver um projeto que vai permitir aos seus membros poupar até 30% na fatura da luz.
O que falta então? Coragem política para simplificar os processos, visão estratégica para aproveitar as sinergias entre diferentes setores e, acima de tudo, a compreensão de que a transição energética não é um custo, mas sim a maior oportunidade de desenvolvimento que Portugal tem nas próximas décadas.
Enquanto escrevo estas linhas, o sol brilha lá fora. A pergunta que fica é: quando é que vamos finalmente aprender a aproveitá-lo?