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A guerra silenciosa das telecomunicações: como as operadoras estão a mudar as nossas vidas sem que demos por isso

Há uma revolução a acontecer nas telecomunicações portuguesas, mas poucos estão a prestar atenção. Enquanto discutimos preços de pacotes e velocidade da internet, as operadoras estão a redefinir silenciosamente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Esta transformação não acontece com anúncios estridentes, mas através de pequenas mudanças que, somadas, estão a alterar o tecido da sociedade portuguesa.

Na última semana, três notícias passaram quase despercebidas: a MEO começou a testar tecnologia 5G standalone em Lisboa, a Vodafone lançou um serviço de saúde digital para empresas e a NOS adquiriu uma startup de inteligência artificial especializada em análise de dados de consumo. Separadas, parecem desenvolvimentos técnicos. Juntas, revelam uma estratégia concertada para capturar não apenas o nosso tempo de ecrã, mas a nossa saúde, trabalho e hábitos de consumo.

O verdadeiro jogo já não é sobre quem tem a rede mais rápida, mas sobre quem consegue integrar-se melhor na vida dos portugueses. As operadoras transformaram-se em empresas de dados disfarçadas de fornecedoras de telecomunicações. Cada chamada, cada mensagem, cada pesquisa na internet alimenta algoritmos que nos conhecem melhor do que nós próprios.

Em Braga, uma pequena empresa de calçado descobriu isto da pior maneira. Após aderir a um pacote empresarial 'inteligente' de uma operadora, começou a receber publicidade de concorrentes diretos nos telemóveis dos seus colaboradores. A operadora estava a vender dados de localização e padrões de pesquisa à concorrência. O caso, ainda em investigação pela CNPD, é apenas a ponta do icebergue de um mercado que opera numa zona cinzenta da privacidade.

Mas há outra frente nesta guerra silenciosa: a batalha pelo espaço físico. As operadoras estão a transformar as suas lojas em centros comunitários, oferecendo desde workshops de tecnologia para idosos até espaços de coworking gratuitos. Em Coimbra, a loja da Vodafone tornou-se ponto de encontro para estudantes internacionais. No Porto, a WOO transformou o seu espaço numa galeria de arte digital. São estratégias subtis para criar dependência emocional e física dos seus serviços.

O mais preocupante é que esta transformação acontece sem debate público. Enquanto na Alemanha há comissões parlamentares a discutir o poder das telecomunicações, em Portugal limitamo-nos a comparar preços no portal da ANACOM. Falta-nos uma conversa séria sobre até que ponto queremos que empresas privadas moldem a nossa conectividade, a nossa privacidade e até as nossas relações sociais.

Há sinais de resistência. Em Aveiro, um grupo de cidadãos criou uma rede comunitária de internet, independente das grandes operadoras. Em Lisboa, advogados especializados em tecnologia começam a receber casos de 'discriminação algorítmica' - situações em que pessoas são cobradas de forma diferente com base nos seus dados de consumo. São pequenas revoltas contra um sistema que parece imparável.

O futuro que se desenha é paradoxal: teremos cada vez mais conectividade com cada vez menos controlo sobre ela. As operadoras prometem-nos mundos digitais maravilhosos enquanto recolhem os dados que nos tornam previsíveis e, portanto, controláveis. A questão que se coloca não é técnica, mas filosófica: que tipo de sociedade estamos a construir quando permitimos que a mediação das nossas relações humanas seja gerida por algoritmos proprietários?

Enquanto escrevo estas linhas, recebo uma notificação no telemóvel: 'A sua operadora detetou que costuma fazer chamadas às 18h. Que tal um pacote com minutos ilimitados nesse horário?' Eles sabem. Eles sempre souberam. A questão é: nós, sabemos para onde isto nos está a levar?

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