Nos últimos meses, enquanto os portugueses se debatem com a inflação e o custo de vida, uma revolução silenciosa está a acontecer nos bastidores do sistema financeiro. Não se trata apenas de taxas de juro ou spreads bancários - embora esses continuem a dominar as manchetes dos jornais económicos. Esta transformação é mais profunda, mais estrutural, e promete redefinir completamente a forma como acedemos ao crédito.
Nas redações do Jornal de Negócios e do ECO Sapo, os editores têm acompanhado o surgimento de novas plataformas de empréstimo peer-to-peer que desafiam os bancos tradicionais. Estas fintechs não são apenas mais rápidas na aprovação de créditos - estão a criar algoritmos que analisam milhares de dados não financeiros, desde o histórico de pagamentos de serviços até aos padrões de consumo energético. O resultado? Decisões de crédito que parecem saídas de um romance de ficção científica.
Mas nem tudo são avanços tecnológicos. No Observador, os jornalistas têm investigado como os bancos continuam a usar critérios que muitos consideram obsoletos. A idade, o tipo de contrato de trabalho, até o código postal continuam a pesar mais do que a capacidade real de pagamento. Enquanto isso, no Dinheiro Vivo, as reportagens mostram famílias que, apesar de terem aumentado os seus rendimentos, se veem recusadas por sistemas de scoring que não acompanharam a realidade económica do país.
A verdadeira mudança, segundo especialistas ouvidos pelo Jornal Económico, está a acontecer nos créditos verdes. Bancos e instituições financeiras estão a criar produtos específicos para eficiência energética, mobilidade sustentável e agricultura biológica. Estes créditos não só têm taxas mais baixas como critérios de aprovação diferentes - focados no impacto ambiental positivo em vez de apenas nos números do balanço familiar.
O problema, como revelam investigações da Economia do Dinheiro Vivo, é que esta transição está a criar novas formas de exclusão. Os idosos, os residentes em zonas rurais e os trabalhadores de setores tradicionais ficam para trás numa corrida digital que privilegia quem tem smartphone, conta nas redes sociais e hábitos de consumo facilmente rastreáveis. A promessa de democratização do crédito através da tecnologia pode estar a criar, paradoxalmente, novos muros invisíveis.
Nos gabinetes reguladores, a discussão é intensa. De um lado, os defensores da inovação que argumentam que Portugal não pode perder o comboio da revolução fintech. Do outro, os cautelosos que lembram os excessos que levaram à crise de 2008. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários tem andado numa corda bamba, tentando equilibrar a proteção dos consumidores com a necessidade de não estrangular a inovação.
O que mais preocupa os analistas é a velocidade da mudança. Em apenas cinco anos, passámos de um sistema quase totalmente controlado por meia dúzia de bancos para um ecossistema com dezenas de players, cada um com as suas regras, algoritmos e critérios. Para o consumidor comum, esta diversidade pode ser tanto uma bênção como uma maldição - mais opções, mas também mais complexidade na hora de comparar e escolher.
As histórias humanas por trás dos números são as mais reveladoras. No norte do país, uma pequena empresa de mobiliário conseguiu um crédito através de uma plataforma online que os bancos tradicionais tinham recusado durante anos. No Algarve, um casal reformado viu o seu pedido de empréstimo para obras ser aprovado em minutos por um algoritmo que analisou o seu histórico de poupança de 40 anos. Mas em Lisboa, um jovem freelancer com rendimentos variáveis continua a bater à porta de todas as instituições sem sucesso.
O futuro, segundo os especialistas mais otimistas, passa pela personalização total do crédito. Em vez de produtos padronizados, cada pessoa terá ofertas adaptadas ao seu perfil específico, com prazos, montantes e condições negociadas em tempo real através de inteligência artificial. Os pessimistas alertam para os riscos de discriminação algorítmica e para a criação de bolhas de crédito baseadas em padrões que ninguém compreende completamente.
Enquanto esta batalha silenciosa se desenrola, os portugueses continuam a sua vida quotidiana, muitas vezes sem perceber que estão no centro de uma das maiores transformações do sistema financeiro desde a criação do euro. A questão que fica no ar, e que merece a atenção de todos - desde os reguladores até ao último consumidor - é simples: esta revolução vai servir as pessoas, ou vai servir-se delas?
O futuro do crédito em Portugal: entre a revolução digital e os velhos fantasmas