Num escritório com vista para o Tejo, um gestor de risco de um dos maiores bancos portugueses abre um ficheiro Excel que conta uma história diferente da que aparece nos relatórios trimestrais. As colunas não mostram apenas números - mostram vidas. Em Portugal, o crédito ao consumo atingiu 18,4 mil milhões de euros no final de 2023, mas os especialistas alertam para uma realidade paralela: a reinvenção silenciosa das dívidas através de produtos financeiros que poucos compreendem completamente.
Os créditos pessoais transformaram-se em criaturas híbridas, com taxas variáveis disfarçadas de fixas nos primeiros meses e comissões escondidas nas letras pequenas. A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) identificou recentemente 14 irregularidades graves neste mercado, mas o problema vai além da regulamentação. Estamos perante uma mudança estrutural na forma como as instituições financeiras abordam o endividamento das famílias.
Enquanto o Banco de Portugal mantém os juros elevados para combater a inflação, os bancos desenvolveram mecanismos criativos para manter o fluxo de crédito. Um deles é o 'crédito em cascata', onde um empréstimo é usado para pagar outro, criando uma espiral que pode durar anos. Os dados do Instituto Nacional de Estatística revelam que 34% das famílias portuguesas têm dificuldade em cumprir os seus compromissos financeiros, mas apenas 12% procuram ajuda especializada.
A investigação conduzida durante três meses em seis instituições financeiras revela um padrão preocupante: a venda cruzada de produtos. Os clientes que procuram um crédito pessoal são sistematicamente direcionados para seguros de vida, cartões de crédito e planos de poupança que aumentam o custo total do empréstimo em até 23%. Um antigo gestor de uma agência bancária, que pediu anonimato, confessa: 'Tínhamos metas mensais para produtos associados. Era mais importante vender o pacote completo do que garantir que o cliente compreendia o que estava a assinar.'
Nos bastidores do setor, desenvolve-se uma nova linguagem financeira. Termos como 'reestruturação flexível', 'período de carência inteligente' e 'soluções de liquidez adaptativas' escondem realidades mais simples: prazos prolongados, juros capitalizados e penalizações por amortização antecipada. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) já emitiu dois avisos este ano sobre a falta de transparência nestas operações, mas a máquina financeira continua a girar.
O fenómeno mais preocupante talvez seja o crédito digital instantâneo. Plataformas fintech oferecem aprovação em 15 minutos, sem contacto humano, através de algoritmos que avaliam milhares de pontos de dados. O que parece conveniência esconde um sistema de avaliação preditiva que pode perpetuar desigualdades. Um estudo da Universidade do Porto descobriu que estes algoritmos tendem a penalizar trabalhadores de setores considerados 'instáveis', mesmo quando têm historiais de crédito impecáveis.
Nas periferias urbanas, onde o acesso aos bancos tradicionais é mais limitado, proliferam os agentes de crédito independentes. Estes intermediários, muitas vezes sem formação financeira adequada, cobram comissões que variam entre 5% e 15% do valor do empréstimo. A Associação Portuguesa de Direito do Consumo recebeu 247 queixas sobre estas práticas apenas no primeiro semestre de 2024, mas a legislação atual não consegue acompanhar a velocidade das inovações financeiras.
A solução, defendem os especialistas, passa por uma literacia financeira que vá além dos conselhos básicos de poupança. É necessário compreender a arquitetura oculta dos produtos de crédito, desde as cláusulas de renegociação até aos mecanismos de atualização de taxas. Algumas associações de consumidores começaram a oferecer workshops específicos sobre 'como ler um contrato de crédito', com listas de verificação que identificam as armadilhas mais comuns.
O Banco de Portugal prepara-se para lançar novas regras de concessão de crédito no final do ano, mas os críticos argumentam que a regulamentação sempre chega atrasada em relação às inovações do mercado. Enquanto isso, nas cozinhas portuguesas, as conversas sobre dinheiro continuam a ser tabu, e as dívidas transformam-se em segredos de família. A verdadeira questão não é quanto os portugueses devem, mas como aprenderam a dever - e que alternativas têm quando o sistema está desenhado para mantê-los no ciclo do crédito.
A revolução silenciosa no crédito ao consumo reflete uma mudança mais profunda na relação dos portugueses com o dinheiro. Num país onde falar de salários ainda é considerado indelicado, discutir as nuances dos contratos de crédito parece quase subversivo. Mas é precisamente nesta discrição que o sistema encontra o seu terreno mais fértil, transformando necessidades imediatas em compromissos de longo prazo que poucos compreendem completamente no momento da assinatura.
O lado oculto do crédito ao consumo: como os bancos reinventam as dívidas dos portugueses