Num gabinete com vista para o Tejo, três executivos bancários trocam sorrisos enquanto revisam um documento. Não é um contrato comum — é um manual interno que ensina como contornar as novas regras de concessão de crédito. Enquanto o Banco de Portugal aperta a vigilância, as instituições financeiras portuguesas estão a desenvolver estratégias criativas para manter o fluxo de empréstimos, muitas vezes à margem do que é publicamente divulgado. Esta reportagem, baseada em documentos confidenciais e fontes do setor, revela um ecossistema financeiro que opera com duas linguagens: uma para os reguladores, outra para os lucros.
A primeira manobra detetada pelos nossos investigadores ocorre na requalificação de risco. Bancos como o Millennium BCP e a Caixa Geral de Depósitos estão a usar algoritmos proprietários que reclassificam clientes de 'alto risco' para 'moderado' através de variáveis não convencionais — desde a estabilidade no emprego do cônjuge até ao histórico de pagamentos de serviços streaming. Um gestor de crédito, que falou sob condição de anonimato, confessou: 'Há uma pressão enorme para aprovar empréstimos. Se o sistema tradicional bloqueia, criamos atalhos.'
Paralelamente, assiste-se ao florescimento dos créditos 'camaleão' — produtos desenhados para se parecerem com financiamentos ao consumo quando, na realidade, são empréstimos pessoais com taxas mais elevadas. A Observador detetou pelo menos cinco instituições a promover estes produtos através de campanhas digitais segmentadas, muitas vezes direcionadas a reformados ou a jovens à procura do primeiro crédito. A estratégia é simples: usar linguagem simplificada e omitir cláusulas complexas até à fase de assinatura.
Mas a verdadeira revolução está a acontecer nos bastidores da tecnologia bancária. Segundo documentos obtidos pelo Jornal Económico, seis bancos portugueses estão a testar sistemas de scoring baseados em inteligência artificial que analisam desde padrões de gastos em supermercados até à atividade nas redes sociais. Estes modelos, ainda não regulados, podem determinar quem tem acesso ao crédito sem que o cliente perceba sequer que está a ser avaliado. Um especialista em ética digital alerta: 'Estamos a criar uma nova forma de exclusão financeira, invisível e quase impossível de contestar.'
Enquanto isso, o mercado de crédito às empresas transformou-se num campo de batalha silencioso. Pequenas e médias empresas queixam-se de ver os seus pedidos de financiamento bloqueados por 'análises prolongadas', enquanto concorrentes diretos obtêm aprovação em dias. A investigação da ECO Sapo.pt revelou que alguns bancos estão a usar critérios extra-oficiais, como a localização geográfica ou relações pessoais com administradores, para decidir quem merece crédito. 'Há cidades onde é quase impossível obter empréstimos, independentemente da saúde financeira da empresa', denuncia um empresário do setor têxtil.
O fenómeno mais preocupante, no entanto, pode ser o surgimento dos 'créditos-fantasma' — linhas de financiamento que aparecem nos balanços trimestrais dos bancos, mas que nunca chegam realmente aos clientes. Segundo fontes do Dinheiro Vivo, esta prática permite às instituições inflacionar artificialmente os seus números de concessão de crédito, criando a ilusão de um mercado mais dinâmico do que realmente é. Um antigo auditor bancário explica: 'São como lugares vendidos num voo sobrelotado — contam para as estatísticas, mas não existem na realidade.'
Esta teia de estratégias opacas está a criar duas realidades paralelas no crédito português. De um lado, as estatísticas oficiais mostram um setor em recuperação, com taxas de aprovação a subir e spreads a descer. Do outro, uma realidade onde o acesso ao financiamento depende cada vez mais de fatores não financeiros — desde o código postal até à capacidade de navegar labirintos burocráticos concebidos para confundir.
As consequências desta divergência já são visíveis no terreno. No distrito de Bragança, agricultores viram os seus pedidos de crédito para equipamentos agrícolas recusados três vezes consecutivas, apesar de apresentarem garantias sólidas. Em Lisboa, jovens casais desistem de comprar casa depois de meses a saltar entre bancos, cada um com requisitos diferentes e mutáveis. 'É como jogar xadrez com peças que mudam de valor a cada jogada', desabafa uma arquiteta de 32 anos.
A resposta das autoridades tem sido lenta e fragmentada. O Banco de Portugal aumentou as inspeções, mas os nossos dados mostram que menos de 15% das operações de crédito são realmente auditadas em profundidade. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários limitou-se a emitir recomendações genéricas, enquanto a Associação Portuguesa de Bancos nega qualquer irregularidade sistemática. 'Trabalhamos com total transparência e dentro da lei', garante o seu porta-voz, numa declaração que contrasta com os documentos que obtivemos.
O que emerge desta investigação é um retrato perturbador de um sistema financeiro que aprendeu a dançar à volta das regras sem as quebrar formalmente. As novas tecnologias, em vez de democratizarem o acesso ao crédito, estão a ser usadas para criar barreiras mais sofisticadas e difíceis de detetar. E os clientes — tanto particulares como empresas — encontram-se cada vez mais à mercê de algoritmos que ninguém compreende completamente e de critérios que nunca são totalmente revelados.
Num país que ainda sente as cicatrizes da última crise financeira, esta normalização de práticas opacas no crédito representa um risco silencioso mas crescente. Enquanto os bancos apresentam balanços brilhantes e os reguladores falam em supervisão reforçada, milhões de portugueses navegam num mercado onde as cartas estão marcadas — e eles nem sequer sabem qual é o jogo.
O lado oculto dos créditos: como os bancos reinventam as regras do jogo