Num país onde o salário médio ronda os 1.200 euros, o crédito ao consumo tornou-se o pão nosso de cada dia para milhões de portugueses. Mas o que começou como uma tábua de salvação transformou-se numa armadilha financeira, com taxas de juro que beiram o usura e contratos escritos em linguagem cifrada que poucos entendem.
As estatísticas são alarmantes: segundo dados do Banco de Portugal, as famílias portuguesas devem mais de 100 mil milhões de euros em crédito ao consumo. Um número que cresce mês após mês, alimentado por campanhas publicitárias agressivas e pela falsa sensação de que 'amanhã se paga'. O problema é que o amanhã chegou, e trouxe consigo uma inflação galopante que devora o poder de compra.
Nos bastidores das financeiras, encontramos estratégias cuidadosamente desenhadas para capturar clientes vulneráveis. As ofertas 'zero juros' são apenas a isca - depois dos primeiros meses, as taxas disparam para valores que podem ultrapassar os 15% anuais. E se o cliente atrasa um pagamento? As penalizações são tão pesadas que transformam uma dívida pequena num buraco sem fundo.
A verdade inconveniente que ninguém quer discutir é que o sistema beneficia da ignorância financeira. Poucos portugueses sabem calcular a TAN (Taxa Anual Nominal) ou a TAEG (Taxa Anual Efetiva Global), e menos ainda compreendem a diferença entre ambas. Resultado: assinam contratos sem perceber que estão a comprometer o seu futuro financeiro por uma televisão nova ou um smartphone de última geração.
Mas há luz no fim do túnel. Um movimento crescente de consumidores está a organizar-se, exigindo transparência e regulamentação mais apertada. Alguns advogados especializados em direito do consumo começam a ganhar casos emblemáticos contra práticas abusivas, criando jurisprudência que pode mudar as regras do jogo.
O que falta é educação financeira nas escolas e uma cultura de prevenção em vez de remediação. Enquanto o crédito fácil for visto como solução em vez de problema, continuaremos a cavar a nossa própria sepultura financeira. A pergunta que fica no ar é simples: até quando vamos aceitar ser reféns do nosso próprio consumo?
O lado sombrio do crédito ao consumo: como as taxas de juro estão a estrangular as famílias portuguesas