Nas ruas de Lisboa e Porto, as montras brilham com promessas de crédito fácil. 'Sem juros durante 12 meses', 'Aprovação em 5 minutos', 'Dinheiro imediato na conta'. As mensagens são sedutoras, mas escondem uma realidade que poucos querem ver. Enquanto os portugueses acumulam dívidas, as instituições financeiras registam lucros recorde. Como é que chegámos aqui? E quem está realmente a pagar a conta?
A investigação começa nos gabinetes luxuosos dos bancos, onde os executivos falam em 'democratização do crédito'. Mas os números contam outra história. Segundo dados do Banco de Portugal, o crédito ao consumo cresceu 8,3% no último ano, enquanto os salários médios praticamente estagnaram. Esta discrepância não é coincidência - é o resultado de uma estratégia cuidadosamente orquestrada para manter os portugueses dependentes do crédito.
Os contratos, escritos em letra miúda que ninguém lê, escondem armadilhas perigosas. As taxas de juro promocionais transformam-se em pesadelos financeiros após os períodos de carência. As comissões escondidas aparecem como fantasmas nas extratos bancários. E as cláusulas de renegociação, supostamente criadas para ajudar os clientes, muitas vezes servem apenas para prolongar o ciclo de endividamento.
Mas o problema vai além dos números. Nas cozinhas das famílias portuguesas, o stress financeiro tornou-se um companheiro constante. Maria, uma mãe solteira de 42 anos, partilha a sua experiência: 'Comecei com um crédito para comprar um computador para o meu filho. Agora tenho três créditos diferentes e não consigo ver o fim.' Histórias como a de Maria multiplicam-se por todo o país, enquanto as instituições financeiras continuam a vender sonhos que se transformam em pesadelos.
A regulação existe, mas é como um guarda que dorme no posto. A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) e o Banco de Portugal têm poderes para intervir, mas as sanções são raras e as mudanças lentas. Enquanto isso, as campanhas publicitárias tornam-se cada vez mais agressivas, especialmente dirigidas aos jovens e aos mais vulneráveis.
Nas redes sociais, os influencers financeiros promovem cartões de crédito como se fossem bilhetes para a liberdade. Os anúncios segmentados atingem precisamente aqueles que menos condições têm para contrair dívidas. E as aplicações de telemóvel tornam o processo tão simples que parece um jogo - até chegar a primeira prestação em atraso.
Mas há luz no fim do túnel. Algumas instituições começam a adoptar práticas mais responsáveis, oferecendo educação financeira real em vez de crédito fácil. Associações de consumidores estão a ganhar batalhas importantes nos tribunais. E cada vez mais portugueses estão a dizer 'não' ao crédito desnecessário, optando por poupar antes de gastar.
A verdadeira questão não é se o crédito ao consumo é bom ou mau - é como podemos criar um sistema que sirva as pessoas, não apenas os lucros. Enquanto investigava esta história, encontrei bancários que se recusam a vender produtos que consideram prejudiciais. Encontrei famílias que descobriram a liberdade ao saírem do ciclo de dívidas. E encontrei uma esperança teimosa de que as coisas podem mudar.
O futuro do crédito em Portugal não está escrito nas estrelas, mas nas escolhas que fazemos todos os dias. Como consumidores, como reguladores, como sociedade. A próxima vez que vir um anúncio de 'crédito fácil', lembre-se: o preço mais caro é aquele que não vem na etiqueta.
O lado sombrio do crédito ao consumo: como os portugueses estão a ser enganados