O lado sombrio do crédito: como os empréstimos rápidos estão a criar uma geração endividada

O lado sombrio do crédito: como os empréstimos rápidos estão a criar uma geração endividada
Nas ruas de Lisboa e Porto, as placas amarelas e vermelhas multiplicam-se como cogumelos após a chuva. 'Crédito em 24 horas', 'Dinheiro imediato sem fiadores', 'Resolva os seus problemas agora'. As promessas soam como música para ouvidos desesperados, mas a melodia esconde uma sinfonia de dívidas que está a estrangular milhares de portugueses.

Enquanto os bancos tradicionais apertam os critérios de concessão, uma nova indústria floresce nas margens do sistema financeiro. São as empresas de crédito rápido, os empréstimos pessoais online, as soluções 'fáceis' para problemas difíceis. O que começou como alternativa tornou-se, para muitos, uma armadilha da qual não conseguem escapar.

Maria, 34 anos, assistente administrativa em Braga, conhece bem essa armadilha. 'Pedi 500 euros para pagar a renda atrasada. Dois anos depois, devia 3.000. Cada vez que tentava liquidar, surgia uma nova taxa, um novo juro, uma nova desculpa.' A sua história repete-se em casas por todo o país, onde o pânico do despejo ou do corte de luz leva a decisões que depois custam anos a corrigir.

Os números são alarmantes. Segundo dados do Banco de Portugal, o crédito ao consumo cresceu 7,2% no último ano, com as taxas de juro a atingirem valores que fazem lembrar os tempos da troika. Mas estes são apenas os números oficiais. Nas sombras, operam dezenas de empresas que não constam das estatísticas, aproveitando-se de lacunas na legislação para cobrar juros que chegam aos 1.000% anuais.

'O problema não é o crédito em si', explica Ricardo Silva, economista e autor de um estudo sobre sobre-endividamento. 'O problema é a falta de educação financeira combinada com uma oferta agressiva que vende soluções mágicas. As pessoas não entendem que estão a hipotecar o seu futuro por uma solução temporária.'

Nas plataformas online, o cenário é ainda mais preocupante. Basta um clique, uma selfie com o cartão de cidadão, e o dinheiro aparece na conta. A facilidade é sedutora, mas os termos e condições escondem-se em letras pequenas que ninguém lê. 'É como vender heroína legalizada', desabafa um ex-funcionário de uma dessas empresas que pediu anonimato. 'Sabemos que estamos a criar dependência, mas os lucros são demasiado bons para dizer não.'

Enquanto isso, as autoridades parecem nadar contra a maré. A ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões) tenta regular o setor, mas as empresas reinventam-se mais rápido do que a legislação consegue acompanhar. 'É um jogo do gato e do rato', admite uma fonte do regulador. 'Fechamos uma porta, eles abrem três janelas.'

Mas há luz no fim do túnel. Associações de consumidores começam a ganhar batalhas nos tribunais, com sentenças que consideram abusivas muitas das cláusulas contratuais. Em Coimbra, um juiz recentemente anulou um contrato onde os juros representavam 800% do valor emprestado, considerando a prática 'usurária e imoral'.

A solução, defendem os especialistas, passa por três frentes: educação financeira nas escolas, regulação mais eficaz e alternativas reais para quem precisa de ajuda. 'Precisamos de microcrédito social, de fundos de emergência municipais, de redes de solidariedade que evitem que as pessoas caiam nas garras destes predadores', defende Carla Mendes, da DECO.

Enquanto as soluções não chegam, Maria continua a sua batalha. Juntou-se a um grupo de apoio a endividados, aprendeu a fazer um orçamento familiar, e conseguiu renegociar a sua dívida. 'Foi humilhante, foi difícil, mas consegui. Agora ajudo outros a não cometerem os mesmos erros.'

Nas ruas, as placas continuam a brilhar. Mas cada vez mais portugueses estão a aprender a ler as letras pequenas. E essa, talvez, seja a verdadeira revolução financeira que o país precisa.

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