A revolução silenciosa dos telhados portugueses: como os painéis solares estão a mudar o país

A revolução silenciosa dos telhados portugueses: como os painéis solares estão a mudar o país
Há uma transformação em curso nos telhados de Portugal que poucos notam ao passar nas ruas. O brilho azulado dos painéis fotovoltaicos multiplica-se de norte a sul, não apenas em grandes parques industriais, mas em casas modestas, armazéns agrícolas e até em pequenos comércios de bairro. Esta não é apenas uma história sobre energia renovável - é um retrato social de como os portugueses estão a tomar as rédeas do seu consumo energético, desafiando modelos centenários de distribuição de eletricidade.

Os números contam parte da história: Portugal atingiu 2,6 gigawatts de potência solar instalada no final de 2023, um aumento de 40% face ao ano anterior. Mas os dados oficiais escondem a verdadeira dimensão do fenómeno. Segundo fontes do setor contactadas para este artigo, existem milhares de instalações não registadas, um mercado paralelo que floresce à margem da burocracia. Em regiões como o Alentejo e o Algarve, estima-se que uma em cada cinco habitações tenha algum tipo de sistema fotovoltaico, mesmo que apenas para aquecimento de águas.

O que impulsiona esta revolução silenciosa? A resposta está numa combinação explosiva: preços da eletricidade que bateram recordes históricos em 2022, programas de incentivo como o Fundo Ambiental, e uma mudança geracional na forma como encaramos a propriedade energética. "Os meus avós esperavam que a EDP lhes resolvesse tudo. A minha geração percebeu que pode ser produtora e consumidora ao mesmo tempo", explica Marta Silva, arquiteta de 34 anos que instalou painéis no seu apartamento em Lisboa.

Mas há sombras nesta história aparentemente solar. A rede elétrica nacional, desenhada para fluxos unidirecionais - das centrais para as casas - está a ser posta à prova por milhares de microprodutores que injetam energia em horários imprevisíveis. Engenheiros da REN admitem, sob condição de anonimato, que os picos de produção solar ao meio-dia criam desafios técnicos complexos, obrigando a desligar temporariamente algumas centrais tradicionais. É um problema de luxo, mas um problema na mesma.

Nos bastidores do poder, a corrida ao sol criou tensões inesperadas. Grandes grupos energéticos, que durante décadas dominaram o mercado, veem-se agora a competir com cooperativas locais e pequenos instaladores. O caso mais emblemático aconteceu em Odemira, onde uma comunidade de 200 famílias criou a sua própria rede, reduzindo as faturas de energia em 60%. "Eles chamam-nos de revolucionários. Nós chamamos-nos de realistas", diz António Mendes, líder do projeto.

A tecnologia avança mais rápido que a legislação. Sistemas de armazenamento em baterias, praticamente inexistentes há cinco anos, começam a aparecer em lares portugueses. A Tesla, através da sua Powerwall, já tem mais de 500 instalações em Portugal, mas são as soluções chinesas, mais baratas, que dominam o mercado emergente. Este armazenamento descentralizado pode ser a peça que faltava para tornar obsoletos os modelos tradicionais de distribuição.

O impacto económico vai além da poupança nas faturas. Criou-se um ecossistema completo: desde empresas de instalação (que empregam já mais de 5.000 técnicos especializados) até à indústria de manutenção e monitorização. Na região de Aveiro, uma fábrica de componentes para painéis solares abriu no ano passado, aproveitando incentivos do PRR. São empregos que não existiam há uma década.

Mas nem tudo é otimismo solar. Especialistas alertam para o risco de uma "bolha verde". O fácil acesso ao crédito para instalações, combinado com promessas de retorno excessivamente otimistas, pode criar situações de sobre-endividamento. "Há vendedores a prometer o impossível: retornos de investimento em dois anos, quando a realidade são cinco a sete", adverte Carlos Pinto, economista especializado em energia.

O próximo capítulo desta revolução escreve-se nas cidades. Lisboa e Porto lançaram programas ambiciosos para transformar telhados planos em centrais solares comunitárias. O conceito é simples: os residentes de um prédio partilham os custos e benefícios de uma instalação coletiva. No Bairro do Rego, em Lisboa, um projeto-piloto abastece já 30 famílias, servindo de modelo para dezenas de outras comunidades.

O que começou como um movimento de nicho - ambientalistas e early adopters - tornou-se mainstream. Bancos oferecem taxas preferenciais para financiamento de painéis solares, seguradoras criam produtos específicos, e até as imobiliárias usam a "classe energética" como argumento de venda principal. A energia solar deixou de ser uma opção alternativa para se tornar um padrão do imobiliário português.

No horizonte, os desafios mantêm-se. A dependência de componentes chineses (90% dos painéis vêm da China), a necessidade de reciclagem de equipamentos que chegarão ao fim de vida dentro de 20-25 anos, e a integração com outras renováveis, especialmente a eólica. Mas o caminho está traçado: Portugal descobriu que o seu recurso mais valioso não está no subsolo, mas a 150 milhões de quilómetros de distância, brilhando todos os dias sobre os nossos telhados.

Esta revolução não faz barulho. Não há manifestações nas ruas nem discursos parlamentares inflamados. Acontece silenciosamente, telhado a telhado, família a família, enquanto Portugal se reconecta com a fonte de energia mais antiga da humanidade, transformando cada raio de sol numa declaração de independência energética.

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