Nas sombras do sector energético português, movimentam-se interesses que pouco têm a ver com a transição verde ou a soberania nacional. Enquanto os discursos oficiais enchem a boca com palavras como "sustentabilidade" e "autonomia", a realidade que se esconde nos contratos, nas facturas e nas salas de reuniões é bem mais cinzenta. Esta investigação mergulha nos meandros de um sistema que continua a favorecer os de sempre, enquanto as famílias e as pequenas empresas apertam o cinto.
Os números oficiais mostram uma descida nos preços da electricidade, mas essa é apenas a ponta do icebergue. Quem realmente analisa as facturas mensais sabe que as componentes fixas, as taxas e os impostos disfarçados continuam a subir de forma silenciosa. É como se nos vendessem um carro mais barato, mas depois cobrassem o triplo pela gasolina e pela manutenção. O consumidor final, esse, fica sempre a perder no meio deste jogo de espelhos.
A grande farsa da descarbonização começa a revelar-se nos contratos de fornecimento de gás natural. Enquanto se fala em energias renováveis, a dependência do gás russo e argelino mantém-se praticamente inalterada. As empresas do sector fazem rotações contabilísticas criativas, apresentando "gás verde" que na prática é o mesmo combustível fóssil de sempre, apenas com um selo caro comprado nalgum mercado de carbono duvidoso.
Nos bastidores, assiste-se a um fenómeno curioso: as mesmas pessoas que ocupavam cargos de direcção nas empresas estatais do tempo do monopólio são agora conselheiras ou administradoras das multinacionais que dominam o mercado liberalizado. É uma dança de cadeiras onde a música muda, mas os dançarinos são sempre os mesmos. Esta circulação de elites explica muita da estagnação e falta de verdadeira inovação no sector.
A energia solar doméstica, apontada como solução milagrosa, transformou-se noutra armadilha para os mais desprevenidos. Os contratos de venda de excedentes à rede são verdadeiros labirintos jurídicos, com cláusulas que permitem às comercializadoras pagar preços irrisórios pela electricidade produzida pelos particulares, para depois a revenderem a preço de ouro. É o capitalismo perfeito: o risco é do pequeno investidor, o lucro é das grandes empresas.
A geopolítica da energia afecta Portugal de forma mais profunda do que se imagina. As crises no Médio Oriente, as tensões no Sahel africano e a instabilidade no Magrebe têm impacto directo nos nossos custos energéticos. No entanto, esta ligação raramente é explicada aos consumidores, que ficam a pensar que as subidas de preços são apenas resultado da ganância das empresas, quando na realidade são sintomas de vulnerabilidades estratégicas que nenhum governo quis verdadeiramente enfrentar.
Os fundos europeus para a transição energética estão a ser aplicados de forma questionável. Grandes projectos de hidrogénio verde e parques eólicos offshore recebem milhões em subsídios, enquanto soluções mais simples e descentralizadas ficam para trás. É como se estivéssemos a construir auto-estradas para carros eléctricos de luxo, enquanto as estradas municipais continuam cheias de buracos.
A verdade inconveniente que ninguém quer discutir é que o modelo actual de mercado energético está esgotado. Foi concebido para outra era, com outras tecnologias e outras necessidades. A insistência em mantê-lo, com pequenos remendos aqui e ali, só serve para perpetuar as desigualdades e adiar as soluções reais. Enquanto isso, Portugal continua a importar mais de 70% da energia que consome, pagando preços que enfraquecem a economia e reduzem a soberania nacional.
A revolução energética que precisamos não virá das grandes corporações ou dos discursos políticos. Terá de nascer da pressão dos consumidores, da criatividade dos pequenos empreendedores e da coragem de quebrar os monopólios disfarçados que ainda dominam o sector. O primeiro passo é perceber que a energia não é uma commodity como outra qualquer - é a base de toda a actividade económica e social. Tratá-la como um simples produto financeiro é condenar o país à estagnação.
O futuro energético de Portugal está a ser decidido agora, nos gabinetes onde se negociam os contratos, nas assembleias onde se aprovam as leis e nas cozinhas onde se pagam as facturas. A questão que fica no ar é simples: queremos continuar a ser espectadores passivos deste jogo sujo, ou vamos finalmente tomar as rédeas do nosso destino energético?
O jogo sujo da energia: como os consumidores pagam a factura dos esquemas obscuros