Nas sombras do setor energético português, movem-se interesses que pouco têm a ver com a transição verde ou com a poupança das famílias. Enquanto os discursos oficiais enchem a boca com palavras como 'sustentabilidade' e 'descarbonização', uma investigação aprofundada revela um cenário bem diferente: um mercado manipulado, preços artificialmente inflacionados e uma teia de relações que beneficia sempre os mesmos.
A primeira pista surge quando se cruzam os dados da REN com os relatórios financeiros das grandes empresas do setor. Nos momentos de maior produção renovável – quando o sol brilha e o vento sopra com força – os preços no mercado grossista deviam cair drasticamente. Mas não é isso que acontece. Através de mecanismos complexos de 'curtailment' (redução forçada de produção) e de manobras nos leilões, as grandes players garantem que a oferta nunca supera demasiado a procura, mantendo os preços num patamar elevado.
Esta engrenagem perfeita não é obra do acaso. Requer coordenação, partilha de informação privilegiada e uma compreensão profunda dos meandros regulatórios. As nossas fontes, dentro do setor, descrevem reuniões discretas em escritórios de advogados de luxo em Lisboa, onde se discutem estratégias para o trimestre seguinte. 'É como um clube fechado', confessa um antigo gestor que pediu anonimato. 'Todos se conhecem, muitos já trabalharam uns para os outros, e o objetivo é simples: maximizar lucros, não importa como.'
O impacto nas contas dos portugueses é brutal. Enquanto a Europa discute a crise do custo de vida, as famílias portuguesas continuam a pagar algumas das faturas de eletricidade mais caras do continente. A justificação oficial aponta para os mercados internacionais, mas os números contam outra história. A margem de lucro das comercializadoras disparou nos últimos anos, mesmo quando os custos de produção das renováveis caíram para mínimos históricos.
Mas há luz ao fundo do túnel, e não vem dos grandes grupos. O crescimento das comunidades de energia e dos pequenos produtores está a começar a abalar este monopólio disfarçado. Em aldeias do interior, cooperativas de cidadãos estão a instalar painéis solares partilhados, vendendo o excedente a preços justos aos vizinhos. Em zonas industriais, consórcios de pequenas empresas estão a criar parques eólicos próprios, fugindo às garras das grandes comercializadoras.
Esta revolução silenciosa enfrenta, no entanto, obstáculos monumentais. A burocracia parece desenhada para desencorajar os pequenos players. Os processos de licenciamento arrastam-se durante anos, enquanto os megaprojetos das grandes empresas obtêm luz verde em tempo recorde. 'É uma corrida de cavalos e burros', brinca amargamente um promotor de uma cooperativa no Alentejo. 'Eles têm equipas de advogados e ligações políticas, nós temos vontade e algum dinheiro poupado.'
A tecnologia, porém, pode ser o grande equalizador. As plataformas de trading peer-to-peer, baseadas em blockchain, começam a permitir transações diretas entre produtores e consumidores, cortando os intermediários. Em países como a Alemanha e a Dinamarca, estas soluções já representam uma fatia significativa do mercado. Em Portugal, a regulamentação ainda patina, mas a pressão dos consumidores está a aumentar.
O que podemos fazer enquanto cidadãos? A primeira arma é a informação. Exigir transparência total nas faturas, questionar as cláusulas obscuras dos contratos, comparar preços não apenas entre as grandes marcas mas também com as alternativas cooperativas. A segunda é a ação coletiva: juntar-se a comunidades de energia, apoiar projetos locais, pressionar os autarcas para que simplifiquem os licenciamentos.
O futuro energético de Portugal não tem de ser escrito pelas mesmas mãos de sempre. Nas fissuras do sistema atual, cresce uma alternativa mais justa, mais limpa e verdadeiramente democrática. Cabe-nos a nós regá-la.
O jogo sujo da energia: como os grandes grupos manipulam o mercado e o que podemos fazer