O jogo sujo da energia: como os preços sobem enquanto os consumidores pagam a fatura

O jogo sujo da energia: como os preços sobem enquanto os consumidores pagam a fatura
Há um segredo sujo que se esconde por trás da fatura da luz que chega todos os meses à sua caixa de correio. Enquanto os políticos falam em transição energética e as empresas distribuem comunicados sobre sustentabilidade, uma máquina bem oleada extrai cada vez mais euros dos bolsos dos portugueses. Esta não é uma história sobre tecnologia verde ou metas ambientais – é uma investigação sobre como o sistema foi manipulado para beneficiar alguns à custa de muitos.

Os números não mentem, mas contam apenas metade da verdade. Quando vê aquele gráfico ascendente no site da ERSE, o que realmente está a observar não é apenas o custo do gás ou a seca que afetou as barragens. Está a ver o resultado de decisões tomadas em salas fechadas, onde reguladores e executivos negociam margens que nunca aparecem nas notícias. A verdadeira crise energética não é de escassez, mas de transparência.

Vamos começar pelo princípio: o mercado grossista de eletricidade. Aqui, o preço é determinado pelo produtor mais caro necessário para satisfazer a procura num dado momento. Este mecanismo, conhecido como 'merit order', significa que quando uma central a gás é acionada, todas as outras – incluindo as renováveis muito mais baratas – recebem o mesmo preço elevado. O resultado? Lucros extraordinários para alguns, facturas extraordinárias para todos os outros.

Mas a história fica mais interessante quando olhamos para quem realmente ganha. Enquanto as famílias cortam no aquecimento e as pequenas empresas reduzem horários, os relatórios financeiros das grandes empresas do setor mostram lucros recorde. Não são apenas os produtores – os intermediários, os traders, os gestores de redes, todos encontraram formas de transformar a crise numa oportunidade de negócio.

O mais perturbador é como o sistema foi estruturado para tornar esta extração de valor quase invisível. Taxas de acesso às redes, sobretaxas para financiar renováveis, custos de capacidade – cada uma destas rubricas na sua fatura representa uma decisão política que transferiu riqueza dos consumidores para o setor. E cada uma foi justificada com argumentos técnicos tão complexos que poucos jornalistas se atrevem a questioná-los.

Agora, a nova fronteira: o hidrogénio verde. Apresentado como a solução milagrosa, já está a ser usado como justificação para novos investimentos que serão pagos – adivinhou – através da sua fatura. Os mesmos padrões repetem-se: promessas vagas de empregos futuros, linguagem técnica intimidante, e um fluxo constante de dinheiro público e privado para projetos cuja rentabilidade depende de subsídios permanentes.

Enquanto isso, as alternativas verdadeiramente democratizantes são marginalizadas. A microgeração familiar enfrenta barreiras burocráticas. As comunidades energéticas esbarram em regulamentos desenhados para proteger os monopólios existentes. A eficiência energética – a forma mais barata de reduzir facturas e emissões – recebe migalhas comparadas com os megaprojetos que enchem páginas de jornais.

O que revela esta investigação não é uma conspiração, mas algo mais banal e mais perigoso: um sistema que aprendeu a se perpetuar. Os mesmos consultores circulam entre governos e empresas. Os mesmos especialistas aparecem em todas as comissões. Os mesmos argumentos são repetidos até se tornarem verdades incontestáveis.

Há uma ironia cruel nesta situação. Portugal tem dos melhores recursos renováveis da Europa – sol, vento, mar – e ainda assim temos dos preços mais altos. Exportamos energia limpa enquanto importamos pobreza energética. Falamos em transição justa enquanto construímos um sistema cada vez mais injusto.

A solução não está em mais tecnologia ou mais mercados. Está em perguntas simples que poucos fazem: quem ganha com esta decisão? Quem paga? Quem decide? Quando começarmos a fazer estas perguntas – e a exigir respostas claras – talvez consigamos desmontar a máquina que está a sugar o país seco.

Esta não é apenas uma história sobre kilowatts e euros. É sobre poder, sobre quem o tem e como o usa. E sobre o que acontece quando um setor fundamental para a sociedade se transforma num casino onde a casa ganha sempre, não importa quantas vezes os dados sejam lançados.

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