Há uma revolução silenciosa a acontecer nas nossas faturas de luz e gás, mas poucos conseguem decifrar os seus contornos. Enquanto os discursos políticos enchem os telejornais com promessas de um futuro verde e acessível, a realidade nas contas mensais dos portugueses conta uma história diferente. A transição energética, esse conceito abstrato que devia levar-nos para um amanhã mais sustentável, transformou-se num labirinto de taxas, subsídios cruzados e aumentos disfarçados que deixam até os mais atentos perdidos em siglas e percentagens.
Os números não mentem: desde 2020, o preço da eletricidade para consumidores domésticos em Portugal subiu mais de 40%, segundo dados da ERSE. Mas esta é apenas a ponta do icebergue. O que realmente está a acontecer é uma transferência silenciosa de custos dos grandes consumidores industriais para as famílias, através de mecanismos tão complexos que até os especialistas têm dificuldade em explicá-los em linguagem comum. A chamada "taxa de carbono" que devia penalizar os poluidores transformou-se num imposto invisível que todos pagamos, enquanto as grandes empresas beneficiam de regimes especiais que lhes permitem escapar aos encargos mais pesados.
A energia renovável, esse cavalo de batalha do discurso político, está longe de ser a salvação que nos prometeram. Os parques eólicos e solares que pintam as paisagens portuguesas geram eletricidade a custos cada vez mais baixos, mas essa poupança não chega às nossas casas. Em vez disso, desaparece num emaranhado de contratos de longo prazo, garantias de rentabilidade para investidores e custos de ligação à rede que fazem os olhos de qualquer economista lacrimejar. O resultado? Pagamos energia solar mais cara do que a produzida pelo gás, num paradoxo que só a burocracia energética consegue explicar.
E o que dizer do hidrogénio verde, essa nova panaceia que vai resolver todos os nossos problemas? Enquanto o governo anuncia investimentos milionários em projetos que só devem estar operacionais daqui a uma década, as famílias portuguesas continuam a aquecer casas com equipamentos obsoletos porque não têm capacidade financeira para os substituir. A transição justa de que tanto se fala parece reservada apenas para quem pode pagar os painéis solares, as bombas de calor e os carros elétricos, criando uma nova divisão social entre os que têm acesso ao futuro e os que ficam presos no passado.
O gás natural, esse combustível fóssil que devia estar em vias de extinção, continua a ser o grande pilar do nosso sistema energético. A dependência mantém-se acima dos 70%, com a agravante de que agora pagamos não só o gás em si, mas também a sua suposta "descarbonização" através de misturas com hidrogénio que ainda não existem à escala comercial. É como pagar antecipadamente por um produto que ainda está a ser desenvolvido, com a garantia de que, se falhar, a culpa será sempre do consumidor que não soube esperar.
As redes de distribuição, essas infraestruturas invisíveis que levam a energia até às nossas casas, tornaram-se num poço sem fundo onde desaparecem centenas de milhões de euros todos os anos. Os investimentos em "redes inteligentes" e "contadores digitais" deviam trazer eficiência e poupança, mas até agora só trouxeram contas mais complexas e tarifários tão confusos que exigem um curso superior para serem compreendidos. A promessa de que poderíamos gerir o nosso consumo em tempo real e pagar menos transformou-se na realidade de sistemas que falham quando mais precisamos deles e aplicações móveis que mostram dados com dias de atraso.
E no meio deste caos regulatório, quem lucra? As mesmas empresas que há décadas dominam o setor energético português, agora disfarçadas de campeãs da sustentabilidade. Os seus lucros batem recordes ano após ano, justificados com a necessidade de financiar a transição verde, enquanto os dividendos distribuídos aos acionistas crescem a ritmos que fariam corar qualquer gestor de fundos de risco. A circularidade perfeita: os consumidores pagam a transição, as empresas ficam com os lucros, e o planeta espera pela sua vez na lista de prioridades.
A verdade inconveniente que ninguém quer enfrentar é que a transição energética em Portugal está a ser desenhada mais para proteger interesses estabelecidos do que para responder à emergência climática. Enquanto discutimos os pormenores técnicos de leilões de capacidade e garantias de potência, o relógio do aquecimento global continua a contar, e as famílias portuguesas continuam a escolher entre comer bem ou aquecer a casa no inverno. A revolução energética que precisamos não está nos relatórios de consultoras nem nos discursos de conferências internacionais - está na coragem de simplificar o que foi complicado, de tornar transparente o que foi obscurecido, e de colocar as pessoas no centro de políticas que, até agora, parecem ter sido escritas à sua custa, mas sem elas.
O caminho para um futuro energético verdadeiramente sustentável passa por perguntas simples que ainda não têm resposta: por que pagamos tanto por algo que devia custar cada vez menos? Quem beneficia realmente desta complexidade toda? E quando é que a transição verde vai deixar de ser um peso nas costas dos portugueses para se tornar na oportunidade económica que nos prometeram? Até lá, continuaremos a navegar neste labirinto energético, onde cada saída parece levar a um novo beco sem saída, e a única certeza é que a fatura chega sempre no final do mês.
O labirinto energético: como os consumidores portugueses estão a pagar a transição que não veem