Enquanto os holofotes da Europa se concentram nos megaprojetos eólicos e solares, uma realidade paralela desenrola-se nos bastidores da transição energética portuguesa. Nos últimos seis meses, mais de 200 pequenas empresas do setor energético tradicional fecharam portas, deixando para trás não apenas números num relatório, mas histórias de famílias que viram décadas de trabalho evaporarem-se no ar rarefeito das políticas climáticas.
A corrida pelas renováveis transformou-se numa maratona onde apenas os mais robustos conseguem manter o ritmo. Enquanto os grandes grupos energéticos anunciam investimentos milionários em parques solares flutuantes e hidrogénio verde, os pequenos distribuidores de combustíveis fósseis enfrentam um dilema existencial: adaptar-se ou desaparecer. O problema é que a adaptação tem um preço que muitos não podem pagar - licenças, tecnologia, formação especializada - criando uma divisão cada vez mais profunda no setor.
Nos concelhos do interior, onde a desertificação já é uma realidade há décadas, a transição energética chegou com promessas de emprego e desenvolvimento. Mas os números contam uma história diferente: dos 1.200 postos de trabalho prometidos nos novos parques eólicos da Beira Interior, apenas 35% foram ocupados por residentes locais. Os restantes trouxeram técnicos especializados de Lisboa e Porto, deixando as comunidades a assistir, mais uma vez, ao espetáculo do desenvolvimento que passa ao largo.
O financiamento europeu, esse rio de ouro que deveria irrigar toda a economia verde, segue um curso previsível: 78% dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência destinados à energia foram absorvidos por apenas 12 empresas. Enquanto isso, as cooperativas energéticas locais, que poderiam democratizar o acesso à produção renovável, lutam contra uma teia burocrática que parece desenhada para as estrangular no berço.
A obsessão pelos números - megawatts instalados, percentagens de renováveis, reduções de CO2 - criou uma visão de túnel perigosa. Esquecemo-nos de perguntar: transição para quem? Para os consumidores que veem a fatura da luz subir 34% em dois anos, enquanto os lucros das grandes energéticas batem recordes históricos? Para os trabalhadores de 55 anos cujas competências se tornaram obsoletas da noite para o dia?
Nos gabinetes climatizados de Bruxelas e Lisboa, desenham-se cenários até 2050 com a precisão de um relógio suíço. Mas nas ruas de Miranda do Douro ou de Mértola, o futuro chegou com o som de portas a fechar e o silêncio que se segue quando as máquinas param. A transição justa, essa bandeira erguida em todos os discursos políticos, parece ter ficado pelo caminho, perdida entre os gráficos de crescimento e as curvas de emissões.
Enquanto isso, um novo tipo de pobreza energética emerge, não por falta de eletricidade, mas por incapacidade de acompanhar a revolução tecnológica. As famílias de baixos rendimentos, que mal conseguem pagar as contas atuais, são agora convidadas a investir em painéis solares, veículos elétricos e sistemas inteligentes - um luxo que para muitos permanece no reino da ficção científica.
A ironia mais cruel desta transição acelerada é que, ao tentarmos salvar o planeta, corremos o risco de sacrificar as pessoas no altar do progresso. As mesmas comunidades que durante décadas alimentaram as centrais a carvão são agora deixadas à sua sorte, enquanto os comboios do futuro passam a alta velocidade, sem paragem marcada nas estações do presente.
O desafio que se colora não é técnico, mas civilizacional: conseguiremos construir um sistema energético que não apenas reduza emissões, mas que também não reduza pessoas a meros obstáculos estatísticos? A resposta ainda está por escrever, mas o relógio não para de contar.
O lado obscuro da transição energética: quem fica para trás na corrida pelas renováveis?