A factura da luz chegou. Mais uma vez, com um valor que faz estremecer o orçamento familiar. Mas o que poucos percebem é que, por trás dos números a vermelho, há uma teia complexa de decisões políticas, interesses económicos e uma transição energética que parece avançar a duas velocidades. Enquanto os consumidores apertam o cinto, as grandes empresas do sector continuam a registar lucros históricos. Como é possível? A resposta está longe de ser simples.
Nos últimos meses, os preços da electricidade em Portugal bateram recordes, reflectindo a volatilidade dos mercados internacionais. O gás natural, essencial para a produção de energia, disparou devido à guerra na Ucrânia e às tensões geopolíticas. Mas essa é apenas a ponta do iceberg. A verdadeira história desenrola-se nos corredores de Bruxelas e nos gabinetes de Lisboa, onde se negoceia o futuro energético do país.
A transição para as renováveis, apesar de ser um caminho inevitável, está repleta de contradições. Por um lado, Portugal é um dos líderes europeus na produção de energia eólica e solar. Por outro, ainda depende fortemente de combustíveis fósseis, especialmente em períodos de menor produção renovável. Esta dualidade cria um sistema frágil, vulnerável a choques externos e a especulações de mercado.
Mas há mais. A estrutura do mercado eléctrico português, herdada de privatizações e reformas mal digeridas, beneficia desproporcionalmente os grandes players. As regras de formação de preços, baseadas no custo marginal da última central a entrar em funcionamento, fazem com que toda a energia seja paga ao preço da fonte mais cara. Ou seja, mesmo quando a maior parte da electricidade vem do sol e do vento, o preço é ditado pelo gás.
Enquanto isso, os consumidores são deixados à mercê de um labirinto de tarifários, descontos promocionais e letras pequenas que poucos conseguem decifrar. A liberalização do mercado, que prometia mais concorrência e preços mais baixos, resultou numa selva de ofertas confusas, onde a escolha do fornecedor se tornou um exercício de adivinhação.
A solução, segundo alguns especialistas, passa por uma maior intervenção do Estado. Não no sentido de voltar ao monopólio da EDP, mas criando mecanismos de protecção para os consumidores mais vulneráveis e investindo em infra-estruturas que garantam a segurança do abastecimento. A aposta no hidrogénio verde e no armazenamento de energia pode ser a chave para reduzir a dependência externa e estabilizar os preços.
No entanto, o caminho está cheio de obstáculos. Os projectos de energias renováveis enfrentam resistência local, burocracia excessiva e conflitos ambientais. A expansão da rede eléctrica, necessária para transportar a energia produzida no interior para os grandes centros urbanos, avança a passo de caracol. E a falta de mão-de-obra qualificada ameaça travar a revolução verde.
O que está em jogo vai muito além da factura mensal. É o futuro do país, a sua autonomia estratégica e a sua capacidade de cumprir as metas climáticas. A energia não é apenas um bem de consumo; é a base de toda a economia. Sem um sistema energético robusto, sustentável e acessível, Portugal arrisca-se a ficar para trás na corrida global pela descarbonização.
Os próximos meses serão decisivos. Com as eleições europeias à porta e um novo governo em Lisboa, a política energética vai estar no centro do debate. Os cidadãos, cansados de pagar preços exorbitantes, exigem respostas claras e acções concretas. A pergunta que fica no ar é: haverá coragem para mudar um sistema que beneficia alguns à custa de muitos?
O preço da energia em Portugal: entre a factura e a factura política