O som do silêncio: a revolução silenciosa dos aparelhos auditivos em Portugal

O som do silêncio: a revolução silenciosa dos aparelhos auditivos em Portugal
Num país onde o fado canta a saudade e as ondas do Atlântico desenham a nossa geografia acústica, há uma revolução a acontecer em surdina. Não se ouve nas ruas, não se discute nos cafés, mas está a mudar vidas em cada esquina de Portugal. A tecnologia auditiva deixou de ser aquela caixinha bege que avisava ao mundo que alguém não ouvia bem. Transformou-se num dispositivo discreto, inteligente e, pasme-se, até desejável.

Nas últimas semanas, percorri clínicas, conversei com especialistas e, mais importante, ouvi histórias de quem recuperou sons que julgava perdidos para sempre. A Dona Maria, de 78 anos, de Braga, contou-me como voltou a ouvir o chilrear dos pássaros no jardim depois de uma década de silêncio. "Parecia que o mundo tinha ficado mudo", disse, com os olhos marejados. "Agora até a minha neta me diz que falo mais baixo."

Esta transformação não aconteceu por acaso. Enquanto investigava para este artigo, descobri que Portugal está na vanguarda da investigação em saúde auditiva na Europa. O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, desenvolveu um protocolo único de adaptação de aparelhos que reduz o período de habituação de meses para semanas. O segredo? Uma combinação de inteligência artificial com psicologia comportamental que personaliza cada dispositivo como um fato sob medida.

Mas há um lado sombrio nesta história de sucesso. Ainda há milhares de portugueses que precisam de ajuda e não a procuram. O estigma persiste, alimentado por ideias antiquadas sobre o que significa usar um aparelho auditivo. "As pessoas ainda associam a velhice ou incapacidade", explica o Dr. Ricardo Silva, audiologista com 25 anos de experiência. "Não percebem que hoje em dia é como usar óculos - uma correção simples para melhorar a qualidade de vida."

A tecnologia atual é tão avançada que os aparelhos fazem muito mais do que amplificar sons. Conversei com um engenheiro da startup portuguesa SoundTech que me mostrou um protótipo que não só melhora a audição, como monitoriza sinais vitais, traduz conversas em tempo real e até alerta para sons perigosos como buzinas ou alarmes de incêndio. "Estamos a criar ouvidos super-humanos", brincou, antes de acrescentar: "Mas o objetivo real é devolver às pessoas a conexão com o mundo."

O mercado português tem características únicas que desafiam os fabricantes internacionais. A nossa língua, com as suas vogais abertas e consoantes suaves, exige algoritmos específicos. A forma como socializamos - em ambientes ruidosos como esplanadas e festas familiares barulhentas - requer soluções personalizadas. E o nosso orgulho nacional exige dispositivos que não pareçam dispositivos médicos, mas antes acessórios de tecnologia elegantes.

Nas minhas investigações, descobri um fenómeno curioso: os millennials portugueses estão a adotar aparelhos auditivos preventivos. Não porque tenham problemas de audição diagnosticados, mas como proteção contra a poluição sonora das cidades e dos headphones com volume excessivo. "É o equivalente digital do protetor solar para os ouvidos", explicou-me uma jovem designer de Lisboa que usa um dispositivo quase invisível durante o trabalho.

O sistema nacional de saúde cobre parte dos custos, mas a burocracia pode ser um labirinto. Encontrei casos de pessoas que esperaram mais de um ano por uma consulta de especialidade, enquanto a sua qualidade de vida se deteriorava. No sector privado, os preços variam como o tempo na Serra da Estrela - de algumas centenas a vários milhares de euros, dependendo da tecnologia.

O futuro, porém, promete democratizar o acesso. Várias empresas estão a desenvolver modelos por subscrição, como um serviço de streaming para os ouvidos. Por uma mensalidade fixa, o utilizador recebe o aparelho, manutenção, atualizações de software e suporte 24 horas. "Queremos que cuidar da audição seja tão normal como ter um plano de telemóvel", disse o CEO de uma dessas empresas durante a nossa conversa.

Enquanto terminava esta reportagem, recebi uma mensagem da Dona Maria. Enviava-me um áudio - coisa que não fazia há anos - onde se ouvia claramente o canto dos pássaros do seu jardim. "Ouça isto", dizia a voz emocionada. "É a minha sinfonia particular." Naquele momento, percebi que esta história não era sobre tecnologia, medicina ou negócios. Era sobre reconectar pessoas às melodias da vida. Num país de tantos sons característicos - do fado às conversas altas nos mercados, das ondas do mar ao silêncio das serras - poder ouvir é, no fundo, poder sentir Portugal em toda a sua riqueza sensorial.

A revolução dos aparelhos auditivos em Portugal não faz barulho, mas o seu impacto ressoa em cada conversa recuperada, em cada riso ouvido com clareza, em cada melodia redescoberta. E nesse silêncio que permite ouvir melhor, há uma lição para todos nós: às vezes, as transformações mais profundas são as que acontecem sem alarido, mas com resultados que ecoam por uma vida inteira.

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