Há um silêncio que se vai instalando gradualmente na vida dos portugueses. Não é o silêncio da paz, mas o da privação. Nas ruas de Lisboa, nos campos alentejanos, nas praias algarvias, cada vez mais pessoas deixam de ouvir os sons que dão cor à existência: o chilrear dos pássaros ao amanhecer, o riso das crianças, a melodia da música que tanto amavam. Esta epidemia silenciosa está a roubar-nos pedaços do mundo sem que nos apercebamos.
A perda auditiva não acontece de um dia para o outro. É um ladrão paciente que vai subtraindo frequências sonoras quase imperceptivelmente. Começa com os sons mais agudos, depois os médios, até que um dia alguém nos diz que estamos a falar demasiado alto ou que a televisão está com o volume excessivo. Nesse momento, já perdemos cerca de 30% da nossa capacidade auditiva. O pior é que a maioria das pessoas demora em média sete anos a procurar ajuda após notar os primeiros sinais.
O ruído urbano tornou-se o nosso inimigo invisível. As cidades portuguesas, outrora calmas, transformaram-se em autênticas selvas sonoras. O trânsito intenso, as obras constantes, os bares e restaurantes com música alta criam um ambiente onde os decibéis ultrapassam frequentemente os limites de segurança. Um estudo recente revelou que quem trabalha no centro de Lisboa está exposto a níveis sonoros equivalentes a uma discoteca durante oito horas por dia.
Mas não são apenas os ambientes profissionais que nos ameaçam. Os nossos hábitos de lazer tornaram-se armas contra a nossa própria audição. Os auriculares, esses companheiros inseparáveis do quotidiano moderno, são responsáveis por danos auditivos em jovens cada vez mais novos. A geração que cresceu com smartphones nos bolsos e música nos ouvidos está a desenvolver problemas auditivos típicos de pessoas com o dobro da sua idade.
A tecnologia, porém, não é apenas vilã. Os avanços na área dos aparelhos auditivos têm sido extraordinários. Os modernos dispositivos são pequenas maravilhas da engenharia, capazes de se conectar ao telemóvel, filtrar ruídos de fundo e até traduzir idiomas em tempo real. Infelizmente, o estigma social ainda impede muitos portugueses de beneficiar destas soluções. Usar um aparelho auditivo continua a ser associado, erradicamente, a velhice ou incapacidade.
A alimentação também desempenha um papel crucial na saúde auditiva. Nutrientes como o zinco, o magnésio e as vitaminas do complexo B são essenciais para manter os delicados mecanismos do ouvido em bom funcionamento. A dieta mediterrânica, tão nossa conhecida, revela-se uma poderosa aliada na prevenção de problemas auditivos. O azeite, o peixe gordo e os frutos secos contêm propriedades que protegem as células ciliadas do ouvido interno.
O stress, esse mal do século XXI, também afecta a nossa capacidade de ouvir. Quando estamos sob pressão constante, o corpo produz cortisol em excesso, uma hormona que pode danificar os vasos sanguíneos que irrigam o ouvido interno. A meditação, o yoga e outras práticas de relaxamento não são apenas modas: são ferramentas essenciais para preservar a nossa conexão com o mundo sonoro.
A prevenção começa na infância. Os pais devem estar atentos aos sinais de alerta: se a criança não reage a sons altos, se aumenta excessivamente o volume da televisão, se tem dificuldade em acompanhar conversas em ambientes ruidosos. A detecção precoce pode fazer toda a diferença entre uma vida cheia de sons e um mundo progressivamente mais silencioso.
Os locais de trabalho precisam de adoptar medidas mais rigorosas de protecção auditiva. Muitos portugueses trabalham em fábricas, construção civil ou indústrias onde a exposição ao ruído é constante e perigosa. A legislação existe, mas a fiscalização é insuficiente e a consciencialização dos trabalhadores ainda é baixa.
O envelhecimento da população portuguesa torna este problema ainda mais urgente. Com o aumento da esperança de vida, mais pessoas viverão o suficiente para experienciar perdas auditivas significativas. Prevenir não é apenas uma questão de saúde individual, mas de bem-estar colectivo. Uma sociedade que não ouve é uma sociedade que perde parte da sua humanidade.
A solução passa por uma abordagem integrada: educação desde cedo, protecção nos ambientes ruidosos, hábitos de vida saudáveis e, quando necessário, recurso atempado a soluções tecnológicas. O som é demasiado precioso para o perdermos por negligência. Cada conversa, cada música, cada riso merece ser ouvido na sua plenitude. A qualidade de vida mede-se não apenas pelo que temos, mas pelo que conseguimos experienciar - e ouvir é uma das experiências mais fundamentais da condição humana.
O som esquecido: como os portugueses estão a perder a capacidade de ouvir o mundo