O som esquecido: uma investigação sobre os ruídos que perdemos sem dar conta

O som esquecido: uma investigação sobre os ruídos que perdemos sem dar conta
Há um silêncio que se instala gradualmente, tão subtil que quase passa despercebido. Primeiro, são os pássaros da manhã que deixam de acordar connosco. Depois, o tilintar das chaves parece mais abafado. Por fim, até as vozes dos netos começam a soar como se viessem de outra divisão, mesmo quando estão ao nosso lado. Esta é a história da perda auditiva que não dói, mas que nos rouba pedaços do mundo sem que demos por isso.

Na minha investigação pelos consultórios de audiologia de norte a sul do país, encontrei uma verdade perturbadora: a maioria das pessoas só procura ajuda quando já perdeu cerca de 30% da sua capacidade auditiva. "É como tentar ver um filme com as luzes apagadas aos poucos", explica-me a Dra. Isabel Mendes, audiologista com 25 anos de experiência. "Os olhos adaptam-se à escuridão gradual, os ouvidos também. Só que quando damos conta, já estamos quase no escuro total."

O que descobri vai além da ciência médica. Há uma cultura do silêncio em Portugal quando se trata de problemas auditivos. Nas famílias, normaliza-se o "fala mais alto" e o "já te disse isso três vezes". Nos locais de trabalho, aceita-se que alguns colegas "não ouvem bem as reuniões". Esta normalização tem um custo invisível: o isolamento social que começa com pequenos afastamentos e termina, muitas vezes, com solidão.

Mas há esperança onde menos se espera. Nos últimos dois anos, surgiram em Portugal iniciativas surpreendentes. Desde cafés onde o som é atenuado propositadamente para quem usa aparelhos auditivos, até aplicações que transformam o telemóvel num amplificador temporário. A tecnologia deixou de ser apenas sobre corrigir deficiências e passou a ser sobre melhorar experiências.

O caso mais fascinante que encontrei foi o do Sr. António, 68 anos, pescador reformado do Algarve. Durante anos, deixou de ir às festas da aldeia porque "já não ouvia a música como devia ser". Quando finalmente colocou um aparelho auditivo moderno, quase invisível, a sua reação foi de puro espanto: "Voltei a ouvir o mar como na minha infância. Não só o barulho das ondas, mas os detalhes - os guinchos das gaivotas lá ao longe, o som específico de cada tipo de rede a ser lançada...".

Esta redescoberta do mundo sonoro é mais comum do que se pensa. Os novos aparelhos não amplificam simplesmente - filtram, distinguem, priorizam. Podem focar-se numa conversa num restaurante barulhento ou captar o canto de um pássaro específico durante um passeio no campo. São, nas palavras de um engenheiro de som que conheci, "óculos para os ouvidos".

No entanto, o acesso a esta tecnologia ainda é desigual. Enquanto nas grandes cidades as clínicas oferecem testes gratuitos e soluções variadas, no interior muitas pessoas continuam a ver os problemas auditivos como "coisa da idade" que se tem de aturar. A vergonha também joga um papel importante - ainda há quem associe aparelhos auditivos a velhice ou incapacidade, quando na realidade são cada vez mais usados por jovens que trabalham em ambientes ruidosos.

O que mais me impressionou nesta investigação foi perceber como o som estrutura as nossas memórias. A D. Maria, 72 anos, contou-me que quando voltou a ouvir claramente após anos de perda auditiva, a primeira coisa que reconheceu foi o som específico da chaleira da sua avó a assobiar. "Pensei que já não me lembrava desse som, mas estava lá, guardado em algum lugar. Quando o ouvi outra vez, vieram-me as lágrimas."

Esta dimensão emocional da audição é frequentemente negligenciada. Falamos de decibéis e frequências, mas esquecemos que o som transporta afetos, identidades, pertenças. Perder audição não é apenas perder volume - é perder nuances, tons de voz, a musicalidade única de cada pessoa que amamos.

A boa notícia é que Portugal está a acordar para esta realidade. Cada vez mais empresas oferecem rastreios auditivos aos funcionários, as escolas começam a incluir educação sobre saúde auditiva, e até os ginásios estão a adaptar os volumes das aulas de grupo. É uma mudança silenciosa, no sentido literal e figurado, mas que promete devolver aos portugueses um mundo mais rico em sons.

No final da minha investigação, fiz um teste auditivo. Os resultados foram normais, mas a experiência mudou-me. Agora presto atenção ao som da chuva nas folhas, ao ritmo único da respiração dos meus filhos a dormir, ao som característico da minha cidade ao fim da tarde. Percebi que estamos sempre a perder sons sem dar conta - não por deficiência auditiva, mas por falta de atenção. Talvez o maior aparelho auditivo que precisamos seja simplesmente a consciência de que cada som conta uma história, e que algumas histórias merecem ser ouvidas antes que desapareçam no silêncio.

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