Num café de Lisboa, enquanto o barista prepara um carioca de limão, um homem de 47 anos observa os lábios do amigo com uma concentração quase cirúrgica. Não é por falta de interesse na conversa - é porque, há três anos, os sons começaram a desvanecer-se como fotografias antigas. Esta cena repete-se diariamente em Portugal, onde cerca de 30% da população acima dos 50 anos sofre de algum grau de perda auditiva, segundo dados da Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia. Mas o que mais preocupa os especialistas não são os números, mas sim o silêncio que os rodeia.
A perda auditiva desenvolve-se muitas vezes como um ladrão discreto: primeiro desaparecem os agudos, depois as consoantes sibilantes, até que um dia percebemos que o chilrear dos pássaros já não faz parte da nossa banda sonora quotidiana. "É uma deficiência invisível", explica a Dra. Isabel Mendes, audiologista com 25 anos de experiência. "As pessoas usam óculos sem constrangimento, mas ainda há um estigma enorme em relação aos aparelhos auditivos. Continuam a associá-los à velhice, quando na realidade a exposição ao ruído nos ambientes urbanos está a afetar cada vez mais jovens."
Nas últimas duas décadas, assistimos a uma revolução tecnológica que poucos notaram. Os aparelhos auditivos modernes são mini-computadores que não apenas amplificam o som, mas processam-no de forma inteligente. Conseguem distinguir entre uma conversa num restaurante barulhento e o barulho de fundo, focando-se no primeiro. Alguns modelos conectam-se diretamente ao telemóvel, permitindo ouvir música ou atender chamadas como se fossem auriculares de alta qualidade. Esta evolução tornou-os menos visíveis e mais eficazes, mas o preconceito persiste.
O impacto social da perda auditiva não tratada é profundo. Estudos mostram que está associada a um risco 30% maior de depressão e a um declínio cognitivo acelerado. Quando deixamos de participar plenamente nas conversas, começamos a isolar-nos. As reuniões familiares tornam-se exaustivas, o cinema deixa de ser divertido, e até o simples ato de ir ao mercado pode transformar-se numa experiência frustrante. "Muitos pacientes chegam ao consultório já com quadros de ansiedade social desenvolvidos", confirma o psicólogo Miguel Andrade, que trabalha especificamente com esta população.
A prevenção, no entanto, continua a ser o grande desafio. Em Portugal, a cultura de proteção auditiva é quase inexistente. Nos concertos, raros são os jovens que usam proteção auricular. Nos locais de trabalho ruidosos, muitos funcionários ignoram os equipamentos de segurança. E o pior: quando os primeiros sinais aparecem - zumbidos após exposição a ruído forte, dificuldade em seguir conversas em ambientes com eco - a tendência é negar o problema. "As pessoas esperam em média sete anos entre perceber que têm dificuldades auditivas e procurar ajuda", revela um estudo da Universidade do Porto.
A solução pode estar numa abordagem mais holística. Clínicas especializadas começam a oferecer não apenas aparelhos, mas programas de reabilitação auditiva que ensinam os pacientes a "reaprender" a ouvir. Terapias combinam treino auditivo com apoio psicológico, reconhecendo que a adaptação a um aparelho requer paciência e persistência. "O cérebro precisa de tempo para se reajustar", explica a terapeuta Carla Simões. "Durante anos, ele compensou a falta de informação sonora desenvolvendo estratégias alternativas. Agora tem de desaprender esses mecanismos."
O futuro, contudo, reserva novidades promissoras. Investigadores portugueses estão a trabalhar em aparelhos que se adaptam automaticamente a diferentes ambientes acústicos, usando inteligência artificial. Outra linha de investigação foca-se na regeneração das células ciliadas do ouvido interno - algo que se acreditava impossível até recentemente. Enquanto essas soluções não chegam, o importante é quebrar o silêncio sobre o silêncio. Falar abertamente sobre dificuldades auditivas, normalizar os aparelhos como acessórios tecnológicos que são, e incentivar check-ups regulares a partir dos 50 anos.
No final, o que está em jogo não é apenas a capacidade de ouvir, mas a qualidade das nossas conexões humanas. Cada conversa perdida, cada piada não compreendida, cada melodia que deixa de emocionar representa um fio cortado no tecido das nossas relações. Recuperar a audição é, em última análise, recuperar a presença plena no mundo - e isso é um direito de todos, independentemente da idade.
O som que ninguém ouve: como a perda auditiva silenciosa está a mudar a nossa relação com o mundo