Num café de Lisboa, enquanto a cidade acorda ao som dos elétricos e das conversas matinais, há um silêncio que poucos notam. Não é a ausência de barulho, mas sim a presença de sons que já não chegam aos ouvidos de quem os perdeu gradualmente, sem dar por isso. A saúde auditiva é como aquele amigo que só damos conta que temos quando nos falta – e em Portugal, essa consciência está a chegar tarde demais para muitos.
Nas últimas semanas, percorri consultórios, fábricas ruidosas e lares de idosos para perceber o que se esconde por trás dos números oficiais. Os dados são claros: segundo a Organização Mundial de Saúde, Portugal tem uma das populações mais envelhecidas da Europa, e com o avançar da idade, a perda auditiva torna-se quase inevitável. Mas o que me surpreendeu não foram as estatísticas – foram as histórias.
Conheci o Sr. António, de 68 anos, que passou 40 anos a trabalhar numa serração no Norte do país. 'No início era só um zumbido ao final do dia', contou-me, enquanto ajustava discretamente o seu aparelho auditivo. 'Depois, foi como se alguém fosse baixando o volume da vida, até que um dia a minha neta me perguntou porque é que já não ria das suas piadas.' O seu caso não é isolado. Em Portugal, estima-se que mais de 300 mil pessoas precisem de aparelhos auditivos e não os usem, muitas vezes por desconhecimento ou pelo estigma que ainda persiste.
Mas o problema não afeta apenas os mais velhos. Num estúdio de gravação no Porto, a engenheira de som Marta, de 32 anos, mostrou-me os seus protetores auriculares personalizados. 'Comecei a notar que depois das sessões mais longas, os sons agudos ficavam distorcidos durante horas', explicou. 'A cultura do 'aguenta-se' na música e em muitas profissões está a custar-nos o ouvido mais cedo do que devia.'
O que descobri nesta investigação é que estamos perante uma epidemia silenciosa. Literalmente. As cidades portuguesas, com o seu tráfego crescente e a poluição sonora constante, criam um ambiente hostil para os nossos ouvidos. Um estudo recente da Universidade de Coimbra revelou que em algumas zonas de Lisboa, os níveis de ruído ultrapassam os 85 decibéis – o limite a partir do qual a exposição prolongada causa danos irreversíveis.
Mas há esperança no horizonte. Visitei uma clínica em Braga onde estão a ser testadas novas tecnologias de reabilitação auditiva que vão além dos tradicionais aparelhos. 'Estamos a trabalhar com estimulação cerebral não invasiva', explicou-me a Dra. Sofia, otorrinolaringologista. 'O objetivo não é apenas amplificar os sons, mas ajudar o cérebro a reinterpretá-los corretamente.'
O mais fascinante, porém, foi descobrir como a cultura portuguesa está a adaptar-se a esta nova realidade. Em Évora, assisti a um concerto especialmente concebido para pessoas com perda auditiva, onde as vibrações dos instrumentos eram transmitidas através do chão. No Algarve, um grupo de restaurantes implementou 'noites silenciosas' com iluminação especial e ementas em braille sonoro.
A verdade é que cuidar da audição deixou de ser uma questão apenas médica para se tornar num movimento cultural. Nas redes sociais, jovens influencers estão a normalizar o uso de aparelhos auditivos, mostrando-os como acessórios de moda. Nas escolas, programas de educação auditiva estão a ensinar às crianças a protegerem os seus ouvidos desde cedo.
No final da minha investigação, sentei-me num miradouro sobre o Tejo, com a cidade aos meus pés. Desliguei momentaneamente o meu gravador e simplesmente ouvi. O vento nas árvores, os pássaros, o distante murmúrio do rio – sons que muitos dos portugueses com quem falei já não conseguem apreciar plenamente. A saúde auditiva não é apenas sobre ouvir melhor, concluí. É sobre não perder a banda sonora da nossa própria vida.
E talvez seja essa a maior lição que retiro destas semanas de reportagem: num mundo cada vez mais barulhento, aprender a escutar – e a preservar essa capacidade – pode ser o ato mais revolucionário de todos.
O som que ninguém ouve: uma investigação sobre os ruídos silenciosos da saúde auditiva