Num café de Lisboa, enquanto o ruído da cidade invade a esplanada, Maria, 68 anos, conta-me como passou dois anos num silêncio quase absoluto. 'Deixei de ouvir os pássaros da minha varanda', diz, enquanto mexe o café. 'Mas o pior foi quando deixei de perceber o riso dos meus netos.' A sua história não é única. Em Portugal, estima-se que mais de um milhão de pessoas vivam com perda auditiva significativa, muitos sem diagnóstico ou tratamento adequado.
O que começa como pequenos sinais - pedir para repetir frases, aumentar o volume da televisão - transforma-se gradualmente num isolamento social invisível. 'As pessoas pensam que somos distraídos ou pouco interessados', explica Carlos, 54 anos, que adiou por uma década a procura de ajuda. 'Na verdade, estamos a fazer um esforço sobre-humano para acompanhar conversas.'
A tecnologia moderna trouxe soluções que parecem saídas de ficção científica. Os aparelhos auditivos de hoje não são os dispositivos volumosos que os nossos avós conheciam. 'Temos modelos que se conectam ao telemóvel, ajustam-se automaticamente a diferentes ambientes e até traduzem idiomas em tempo real', revela Dra. Sofia Martins, audiologista com 20 anos de experiência. 'O problema é que muitas pessoas ainda têm a imagem antiquada desses dispositivos.'
A jornada para recuperar a audição envolve mais do que tecnologia. 'Encontrei pacientes que choraram ao ouvir a própria voz pela primeira vez em anos', conta a especialista. 'Há uma reconexão emocional com o mundo que é profundamente comovedora.'
Nos bastidores da saúde auditiva portuguesa, descobri uma rede de profissionais dedicados que vão além da consulta tradicional. 'Fazemos sessões de reabilitação auditiva', explica o terapeuta Rui Costa. 'Ensinamos as pessoas a ouvir de novo, a distinguir sons que tinham esquecido existir.'
Os mitos persistem, no entanto. 'Ainda há quem pense que os aparelhos auditivos pioram a audição natural', desabafa Dra. Martins. 'Ou que são apenas para idosos. Na verdade, temos cada vez mais jovens com problemas auditivos devido à exposição a ruídos elevados.'
A prevenção emerge como capítulo fundamental nesta história. Concertos, trânsito, até mesmo o uso excessivo de auriculares - o nosso mundo moderno é uma orquestra de potenciais agressores auditivos. 'As pessoas protegem a visão com óculos de sol, mas raramente pensam em proteger os ouvidos', observa o especialista.
Nas comunidades rurais, o acesso a cuidados auditivos apresenta desafios únicos. 'Temos pacientes que viajam horas para uma consulta', relata uma técnica de uma clínica no interior alentejano. 'Mas quando finalmente recebem ajuda, a transformação é milagrosa. Voltam a participar nas festas da aldeia, a ouvir as histórias à lareira.'
O custo continua a ser barreira para muitos. Apesar de comparticipações do SNS e seguros de saúde, os valores podem ser proibitivos. 'É uma ironia cruel', reflete um paciente. 'Conseguimos colocar um homem na lua, mas não garantir que todos possam ouvir os filhos a crescer.'
As histórias de superação, no entanto, iluminam este cenário. Como a de João, 45 anos, músico que quase perdeu a carreira. 'Pensei que tinha chegado ao fim', confessa. 'Com os aparelhos adequados e terapia, não só continuei a tocar como compus peças inspiradas na minha própria jornada auditiva.'
O futuro promete revoluções. Investigadores portugueses trabalham em soluções biônicas, regeneração celular e inteligência artificial aplicada à audição. 'Estamos a caminho de dispositivos que não apenas amplificam sons, mas os interpretam e priorizam', antevê um investigador da área.
Enquanto termino esta reportagem, lembro-me das palavras de Maria, agora com dois pequenos dispositivos quase invisíveis atrás das orelhas. 'Hoje ouvi a chuva a cair', disse-me com lágrimas nos olhos. 'Tinha-me esquecido como soava.' Num mundo cada vez mais barulhento, talvez a maior revolução seja redescobrir o silêncio entre os sons, e os sons que valem a pena ouvir.
O som que nos escapa: histórias de quem recuperou o mundo através da audição