O som que se perde: uma investigação sobre o silêncio gradual que afeta os portugueses

O som que se perde: uma investigação sobre o silêncio gradual que afeta os portugueses
Há um som que está a desaparecer das nossas vidas, e poucos se apercebem até ser tarde demais. Não é o canto dos pássaros nas cidades, nem o murmúrio dos riachos no campo. É um som mais íntimo, mais pessoal: o som da nossa própria capacidade de ouvir. Em Portugal, estima-se que mais de um milhão de pessoas sofram de perda auditiva, mas menos de 30% usam aparelhos auditivos. Porquê? A resposta é mais complexa do que parece.

Durante meses, percorri consultórios, associações de doentes e lares de terceira idade. Encontrei histórias que falam de um problema silencioso, que avança sem fazer ruído. Maria, 68 anos, contou-me como deixou de ir às reuniões de família porque não conseguia acompanhar as conversas. "Pensavam que eu estava distante, desinteressada. Na verdade, estava apenas perdida num mundo de sons incompletos."

Os especialistas falam de um fenómeno preocupante: a perda auditiva está a afetar pessoas cada vez mais jovens. A exposição constante a ruído, seja nos locais de trabalho, nos transportes públicos ou através dos auriculares, está a criar uma geração que poderá precisar de ajuda auditiva décadas antes dos seus pais. "Vemos pessoas de 40 anos com audição típica de alguém de 60", confirma o Dr. Ricardo Silva, audiologista com 25 anos de experiência.

Mas o verdadeiro drama não está apenas na perda física da audição. Está no que essa perda representa: isolamento social, depressão, declínio cognitivo acelerado. Estudos recentes mostram que a perda auditiva não tratada aumenta em 50% o risco de demência. É um dado alarmante que deveria fazer soar todos os alarmes no nosso sistema de saúde.

A tecnologia dos aparelhos auditivos evoluiu mais nos últimos cinco anos do que nas duas décadas anteriores. Os novos dispositivos são praticamente invisíveis, conectam-se aos smartphones, filtram ruído de fundo e até traduzem línguas em tempo real. Mas o estigma persiste. "As pessoas ainda associam aparelhos auditivos à velhice, à incapacidade", explica Sofia Mendes, da Associação Portuguesa de Surdos. "Precisamos de normalizar o cuidado auditivo, tal como normalizámos os óculos."

O acesso a estes dispositivos é outra barreira. Enquanto em países como a Dinamarca ou o Reino Unido o estado comparticipa significativamente os aparelhos, em Portugal muitas famílias têm de escolher entre a audição e outras necessidades básicas. "Um bom aparelho pode custar mais de dois mil euros", conta-me Carlos, 72 anos, que adiou a compra durante três anos. "Com a minha reforma, era isso ou as despesas médicas da minha mulher."

Há, no entanto, sinais de mudança. Alguns municípios começaram programas de rastreio auditivo nas escolas. Empresas inovadoras oferecem subscrições mensais para aparelhos, tornando-os mais acessíveis. E a telemedicina permite ajustes remotos, poupando deslocações a quem vive longe dos centros urbanos.

Mas o caminho é longo. Durante a minha investigação, descobri que muitas pessoas passam em média sete anos entre perceberem que têm um problema e procurarem ajuda. Sete anos de conversas perdidas, de música que se torna distorcida, de avisos que não se ouvem. Sete anos de um mundo que vai ficando cada vez mais silencioso.

A solução começa pela informação. Fazer exames auditivos regulares, tal como fazemos check-ups dentários ou oftalmológicos. Proteger os ouvidos em ambientes ruidosos. E, acima de tudo, perder o medo de pedir ajuda. Porque ouvir bem não é um luxo – é uma parte fundamental da nossa conexão com o mundo e com os outros.

No final da minha investigação, sentei-me com um grupo de utilizadores de aparelhos auditivos. Quando lhes perguntei o que mais valorizavam na sua nova capacidade de ouvir, a resposta foi unânime: "Os pequenos sons". O chilrear dos pássaros ao amanhecer, o riso dos netos, o som da chuva contra a janela. Sons que muitos de nós damos como garantidos, até um dia deixarmos de os ouvir.

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