Num país onde o sol brilha 300 dias por ano e o azul do mar se confunde com o do céu, os portugueses têm uma relação peculiar com o risco. Enquanto planeiam férias no Algarve ou investem na renovação da casa de família, muitos continuam a subestimar os perigos que espreitam nas sombras do quotidiano. A verdade é que, em Portugal, falar de seguros ainda provoca mais bocejos do que discussões acaloradas. Mas e se lhe dissermos que a sua apólice pode estar a esconder segredos que nenhum mediador se atreve a revelar?
Comecemos pelos números que ninguém gosta de ver. Segundo dados recentes da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, apenas 35% dos portugueses têm seguro de vida, um dos valores mais baixos da Europa Ocidental. Nas zonas rurais, essa percentagem cai para números que fazem tremer qualquer especialista. Enquanto isso, as seguradoras acumulam lucros recorde, alimentados por prémios que sobem ano após ano, quase sempre sem explicação clara para o consumidor comum. O que está a falhar nesta equação?
A resposta pode estar nos corredores silenciosos das grandes seguradoras, onde algoritmos complexos decidem quem merece proteção e quem deve pagar mais. Investigámos durante meses e descobrimos que muitos portugueses estão a ser classificados em 'categorias de risco' baseadas em dados que nunca autorizaram partilhar. O seu código postal, o modelo do seu carro, até a sua atividade no Facebook podem estar a influenciar o preço do seu seguro de casa. E o pior? É tudo legal, graças a cláusulas escondidas em letra miúda que ninguém lê.
Mas há luz ao fundo do túnel. Um movimento crescente de startups insurtech está a desafiar os gigantes tradicionais. Em Lisboa e no Porto, jovens empreendedores criam seguros pay-per-use para bicicletas elétricas, coberturas flexíveis para teletrabalhadores e até proteção para nómadas digitais que trocam de país como quem troca de camisa. A Revolut já oferece seguros de telemóvel por 3 euros mensais, enquanto a Lemonade promete resolver sinistros em minutos através de inteligência artificial. O velho mundo dos papéis e das esperas intermináveis está com os dias contados.
No entanto, a verdadeira revolução pode estar a acontecer longe dos holofotes. Nas comunidades rurais do interior, grupos de vizinhos estão a criar sistemas mútuos de proteção, inspirados nas antigas mutualidades que existiam antes do Estado Social. Em Trás-os-Montes, encontramos uma rede de agricultores que partilham o risco de colheitas perdidas por intempéries. No Alentejo, criadores de gado desenvolveram um fundo comum para cobrir emergências veterinárias. São soluções caseiras, mas que revelam uma sabedoria ancestral sobre como enfrentar a incerteza.
E o que dizer dos seguros que ainda nem existem no mercado português? Enquanto na Alemanha já se pode segurar a carreira contra obsolescência profissional e na Califórnia há apólices para proteger influenciadores digitais de cancelamentos, em Portugal continuamos presos aos produtos tradicionais. A culpa não é só das seguradoras - a regulamentação excessiva e a aversão cultural ao risco criam um círculo vicioso difícil de quebrar.
O futuro, contudo, reserva surpresas. Com as alterações climáticas a tornarem certas zonas do país quase inseguráveis (já tentou fazer um seguro de casa na costa algarvia recentemente?) e a economia digital a criar novos riscos diariamente, os portugueses vão ter de repensar a sua relação com a proteção. A solução pode passar por um modelo híbrido: tecnologia de ponta para processos eficientes, mas com um toque humano que entenda que segurar uma vida ou um património é mais do que uma transação comercial.
Enquanto escrevemos estas linhas, milhares de portugueses renovam automaticamente as suas apólices sem fazer uma única pergunta. Pagam mais, aceitam menos cobertura e confiam em entidades que os veem como números num ecrã. Mas a mudança começa com a pergunta mais simples: 'O que estou realmente a comprar?' A resposta pode surpreendê-lo - e poupar-lhe centenas de euros no processo.
A próxima vez que receber a renovação do seu seguro, não a assine antes de fazer três coisas: comparar preços em pelo menos cinco empresas, ler as exclusões com uma lupa e questionar cada aumento. O seu bolso - e a sua tranquilidade - agradecem.
Seguros em Portugal: o que os portugueses ainda não sabem sobre proteger o que é seu