Seguros em Portugal: o que os portugueses não sabem (mas deviam)

Seguros em Portugal: o que os portugueses não sabem (mas deviam)
Num país onde o seguro automóvel é obrigatório e o seguro de saúde se tornou quase um acessório de sobrevivência, poucos param para pensar no que realmente está em jogo quando assinam aquela apólice cheia de letra miúda. A verdade é que os seguros em Portugal são um mundo à parte, com regras que muitos desconhecem e detalhes que podem fazer a diferença entre receber uma indemnização ou ficar a ver navios.

Vamos começar pelo básico: sabia que, em caso de acidente automóvel, tem apenas oito dias para comunicar o sinistro à seguradora? E que, se não o fizer, pode perder o direito a ser indemnizado? Esta é apenas uma das muitas armadilhas escondidas nos contratos que assinamos sem ler. As seguradoras contam com o nosso desleixo, e os números não mentem: mais de 30% dos portugueses nunca leram na íntegra as condições do seu seguro.

Mas o problema vai além da falta de leitura. Há cláusulas abusivas que passam despercebidas até aos olhos mais atentos. Já ouviu falar da 'cláusula de exclusão por negligência grave'? É uma daquelas pérolas que permite à seguradora recusar o pagamento se considerar que o segurado agiu com imprudência. O que é negligência grave? Depende. Pode ser desde estacionar num local proibido até não fechar a porta de casa à chave. A interpretação é livre, e a balança pende quase sempre para o lado da empresa.

E que dizer dos seguros de saúde? Aqui, o cenário é ainda mais complexo. As listas de espera para consultas e cirurgias no Serviço Nacional de Saúde levaram milhões de portugueses a contratar seguros de saúde privados. Mas o que poucos sabem é que estes seguros têm limites bem definidos. Muitos planos cobrem apenas um determinado número de consultas por especialidade por ano, e os tratamentos mais caros – como oncologia ou cirurgias complexas – estão frequentemente sujeitos a franquias elevadíssimas ou mesmo à exclusão total.

Há ainda o fenómeno dos 'seguros low-cost', que inundaram o mercado nos últimos anos. Prometem preços baixos, mas escondem coberturas reduzidas e condições draconianas. Um exemplo? Alguns seguros automóveis low-cost não cobrem danos próprios em caso de acidente com culpa do segurado. Ou seja, se bater com o carro, a seguradora paga os danos do outro veículo, mas o seu fica por sua conta. Parece um detalhe, até o dia em que acontece.

E os seguros de vida? Esse é talvez o território mais pantanoso de todos. Muitos portugueses contratam seguros de vida sem perceber que existem dois tipos principais: o seguro de vida puro (que paga apenas em caso de morte) e o seguro de vida com poupança (que combina proteção com um componente de investimento). O segundo é mais caro e, frequentemente, menos vantajoso do que investir o dinheiro separadamente. Mas os vendedores, movidos por comissões generosas, raramente explicam esta diferença.

Outro ponto crítico é a renovação automática. A maioria dos seguros renova-se automaticamente todos os anos, e os preços sobem sem que o cliente se aperceba. A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) alerta regularmente para esta prática, mas poucos consumidores comparam preços antes da renovação. E assim, ano após ano, pagamos mais pelo mesmo.

Mas nem tudo são más notícias. Há luz ao fundo do túnel. A digitalização trouxe comparadores de seguros online que permitem, em minutos, encontrar a melhor oferta. E a ASF tem vindo a apertar o cerco às práticas abusivas, multando seguradoras que não cumprem as regras. Além disso, os consumidores estão cada vez mais informados e exigentes, o que força as empresas a serem mais transparentes.

No final, a lição é clara: um seguro não é um mero papel que assinamos e esquecemos numa gaveta. É um contrato com implicações reais no nosso dia a dia e no nosso futuro. Ler as letras miúdas, comparar ofertas e questionar o que não percebemos não é paranoia – é sobrevivência. Num mundo cheio de incertezas, a única certeza que devemos ter é a de que conhecemos as regras do jogo. Porque, quando menos esperamos, pode ser tarde demais.

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