Num consultório veterinário de Lisboa, enquanto esperava com o meu cão Leo, ouvi uma conversa que me fez questionar tudo o que pensava saber sobre seguros para animais. Uma mulher, com lágrimas nos olhos, explicava à rececionista que não podia pagar uma cirurgia de emergência porque o seu seguro 'não cobria essa condição pré-existente'. Esta cena, mais comum do que imaginamos, revela uma realidade pouco discutida: os seguros para animais de estimação são tanto um salvador como um labirinto de letras miúdas.
A verdade é que muitos tutores portugueses assinam apólices sem compreender realmente o que estão a adquirir. Segundo dados não divulgados publicamente, cerca de 40% dos reembolsos são recusados no primeiro ano de contrato, principalmente devido a mal-entendidos sobre períodos de carência e exclusões. Os períodos de carência – aqueles dias ou semanas após a contratação durante os quais certas coberturas não se aplicam – são a armadilha mais frequente. Um gato adotado na segunda-feira pode não ter cobertura para doenças até um mês depois, deixando os tutores vulneráveis exatamente quando mais precisam.
Mas vamos além dos números. Conversei com Marta, uma dona de três gatos do Porto, que descobriu da pior maneira que o seu seguro não cobria tratamentos dentários. 'Paguei 600 euros por uma limpeza dentária e extrações, pensando que seria reembolsada. Recebi uma carta a explicar que cuidados dentários eram considerados 'eletivos' e não urgentes', contou-me, ainda com raiva na voz. Esta distinção entre procedimentos 'eletivos' e 'necessários' varia drasticamente entre seguradoras, criando um terreno pantanoso onde até os veterinários se perdem.
Investiguei durante semanas os contratos de seis das principais seguradoras em Portugal, comparando cláusulas obscuras que raramente são explicadas nas brochuras coloridas. Descobri que algumas empresas consideram 'condições hereditárias' como exclusão permanente, mesmo quando essas condições só se manifestam anos depois da contratação. Um pastor-alemão pode ser excluído de cobertura para displasia da anca aos cinco anos, mesmo que nunca tenha mostrado sintomas antes.
O lado mais sombrio desta indústria emergente revela-se nas renovações anuais. À medida que os animais envelhecem, os prémios aumentam – por vezes duplicando após os sete anos de idade – enquanto as coberturas diminuem. Falei com Carlos, reformado de Coimbra, que viu o prémio do seguro do seu cão de dez anos subir para 45 euros mensais, tornando-o economicamente insustentável. 'É como se estivessem a contar que ele vai morrer em breve, então cobram mais porque vão ter de pagar', desabafou.
Mas nem tudo são más notícias. Seguros bem escolhidos salvaram inúmeros animais em Portugal. A história de Bela, uma cadela resgatada que precisou de três cirurgias no valor total de 4000 euros, teria terminado tragicamente sem a apólice que a sua tutora, Sofia, escolheu cuidadosamente. 'Li o contrato três vezes, fiz perguntas incómodas ao corretor, e recusei a primeira proposta', explicou Sofia. 'Quando a Bela precisou, o seguro cobriu 80%. Foi a melhor decisão que tomei.'
Esta dicotomia entre histórias de sucesso e pesadelos burocráticos aponta para uma necessidade urgente: educação. Os portugueses precisam de aprender a ler os contratos como se fossem instruções de sobrevivência, não como meros formalismos. Perguntas específicas devem ser feitas: 'Esta apólice cobre doenças crónicas como diabetes ou alergias?', 'Há limite anual por condição ou apenas global?', 'Os tratamentos de fisioterapia ou acupuntura estão incluídos?'
O mercado está a evoluir, com novas empresas a oferecer coberturas mais transparentes e apps que facilitam os reembolsos. Algumas até permitem personalizar a apólice, escolhendo apenas as coberturas necessárias para o estilo de vida do animal. Um gato indoor pode não precisar da mesma proteção que um cão de caça, e finalmente começamos a ver opções que refletem esta realidade.
No final da minha investigação, uma conclusão tornou-se clara: o seguro para animais não é um luxo, mas uma ferramenta que requer conhecimento para ser utilizada eficazmente. Como me disse um veterano veterinário de 30 anos, sob condição de anonimato: 'O melhor seguro é aquele que esperas nunca usar, mas quando precisas, está lá sem surpresas. Infelizmente, muitos só descobrem as surpresas quando é tarde demais.'
A relação com os nossos animais é baseada em confiança e cuidado. O seguro deve ser uma extensão dessa relação, não uma fonte de ansiedade. Exigir transparência, fazer perguntas difíceis e comparar não apenas preços mas principalmente coberturas são os primeiros passos para mudar uma indústria que, no fundo, existe para proteger quem mais amamos – os nossos companheiros de quatro patas.
O que os veterinários não contam sobre os seguros de animais: mitos e verdades