Enquanto os holofotes da transição energética em Portugal se concentram nos painéis solares que cobrem telhados e campos, uma revolução mais silenciosa — mas potencialmente mais transformadora — está a ganhar forma nos bastidores. O hidrogénio verde, produzido a partir de fontes renováveis como a solar e a eólica, está a deixar de ser um conceito futurista para se tornar um pilar estratégico da economia portuguesa. Nos últimos meses, projetos que pareciam distantes começaram a materializar-se com uma velocidade surpreendente, desafiando o ceticismo inicial e atraindo investimentos que ultrapassam os mil milhões de euros.
O que mudou? A resposta está numa combinação de ambição política, avanços tecnológicos e uma pressão geopolítica inédita. A guerra na Ucrânia acelerou a necessidade europeia de independência energética, e Portugal, com o seu potencial solar excecional e infraestruturas portuárias estratégicas, posicionou-se como um player-chave. O plano nacional para o hidrogénio, outrora visto como um documento teórico, ganhou contornos concretos com a aprovação de unidades de produção em Sines, no Montijo e no Norte do país. Estas não são meras fábricas; são hubs industriais que prometem reativar regiões e criar milhares de empregos qualificados.
No entanto, por trás do otimismo oficial, escondem-se desafios monumentais. A produção de hidrogénio verde é ainda significativamente mais cara do que a do hidrogénio cinzento (produzido a partir de gás natural), e a construção da necessária infraestrutura de transporte — gasodutos adaptados, estações de abastecimento — está a avançar a um ritmo mais lento do que a produção. Investidores privados confessam, em off, que os prazos são apertados e que a burocracia pode estrangular a inovação. "Temos a tecnologia, temos o capital, mas precisamos de agilidade regulatória", confidencia um CEO de uma startup do setor, que pede anonimato.
O setor dos transportes pesados e da indústria química emerge como os primeiros grandes consumidores. Caminhões a hidrogénio já estão a ser testados em rotas logísticas, e fábricas de cimento e aço — tradicionalmente grandes emissores de CO2 — começam a ver no hidrogénio uma via para a descarbonização. Mas o verdadeiro salto acontecerá quando a escala de produção permitir preços competitivos, algo que os especialistas preveem para daqui a cinco a sete anos, não amanhã.
Enquanto isso, nas comunidades locais onde se instalam os projetos, o sentimento é ambíguo. Em Sines, há esperança de revitalização económica, mas também receios ambientais. O consumo massivo de água para a eletrólise (processo que separa o hidrogénio da água) é uma preocupação real num país vulnerável à seca. Os promotores garantem que usarão água dessalinizada ou reciclada, mas os ambientalistas exigem transparência total. "Não podemos substituir uma dependência por outra", alerta uma ativista local.
O hidrogénio verde é, assim, muito mais do que uma aposta energética; é um teste à capacidade de Portugal executar projetos complexos, equilibrar interesses e liderar numa nova economia global. Os próximos meses serão decisivos: ou o país consegue transformar a visão em realidade e exportar energia limpa para a Europa, ou fica preso numa teia de promessas não cumpridas. A revolução, se acontecer, será silenciosa — mas o seu impacto ecoará por décadas.
A revolução silenciosa do hidrogénio verde em Portugal: mais do que uma promessa