A revolução silenciosa do hidrogénio verde em Portugal: o que os grandes meios não estão a contar

A revolução silenciosa do hidrogénio verde em Portugal: o que os grandes meios não estão a contar
Enquanto os holofotes mediáticos se concentram nos painéis solares que pintam de azul os telhados portugueses, uma revolução muito mais profunda está a germinar nos laboratórios e centros de investigação do país. O hidrogénio verde, essa molécula simples com potencial para transformar por completo a nossa matriz energética, começa a dar os primeiros passos sólidos em território nacional, mas a narrativa pública continua surpreendentemente superficial.

Nas instalações da Fusion Fuel em Benavente, os engenheiros trabalham com uma urgência silenciosa. Aqui, não se trata apenas de mais um projeto piloto ou de demonstração tecnológica. Estamos perante uma aposta industrial concreta que já está a exportar know-how para a Alemanha e para o Médio Oriente. A ironia? Enquanto Portugal se prepara para se tornar exportador de tecnologia de hidrogénio, a maioria dos portugueses desconhece por completo esta realidade.

O que torna esta história particularmente fascinante são os números que nunca chegam às primeiras páginas. Segundo dados da DGEG, Portugal tem capacidade para produzir hidrogénio verde a um custo competitivo com os combustíveis fósseis já em 2025 - três anos antes das previsões mais otimistas da Comissão Europeia. Este não é um dado menor: significa que podemos estar à beira de uma viragem histórica na economia energética nacional.

Mas a verdadeira revolução acontece longe dos holofotes, nos acordos de fornecimento que estão a ser negociados entre produtores nacionais e grandes grupos industriais. A Navigator Paper, por exemplo, já está a testar a substituição parcial do gás natural por hidrogénio na sua fábrica de Setúbal. Os resultados preliminares sugerem reduções de emissões na ordem dos 30% sem comprometer a competitividade. Este tipo de casos práticos, no entanto, raramente aparece na imprensa generalista.

O setor dos transportes representa outro capítulo fascinante desta história. Enquanto toda a atenção se concentra nos veículos elétricos a bateria, os camiões e autocarros movidos a hidrogénio começam a circular nas estradas portuguesas em projetos-piloto que mereceriam muito mais cobertura. A Carris, em parceria com a CaetanoBus, tem em testes um autocarro movido a hidrogénio que pode ser abastecido em menos de 10 minutos e tem autonomia para um dia inteiro de operação na cidade.

Os desafios, naturalmente, existem e são significativos. A infraestrutura de abastecimento praticamente inexistente, os custos ainda elevados dos eletrolisadores e a necessidade de formar técnicos especializados representam obstáculos consideráveis. Mas o que mais surpreende é a velocidade com que estes problemas estão a ser resolvidos. A Galp, por exemplo, já anunciou planos para instalar postos de abastecimento de hidrogénio nas suas principais estações de serviço até 2025.

A componente internacional desta equação é igualmente negligenciada pela comunicação social. Portugal está a posicionar-se como um hub estratégico para o hidrogénio verde na Europa, não apenas pela qualidade dos nossos recursos renováveis, mas também pela localização geográfica privilegiada. Os portos de Sines e de Leixões podem tornar-se centros de exportação para o norte da Europa, criando uma nova fileira exportadora que pode valer milhares de milhões de euros anuais.

Os fundos comunitários do PRR destinam 185 milhões de euros especificamente para projetos de hidrogénio verde, mas a aplicação prática destes recursos continua envolta em mistério. As candidaturas fechadas, os processos de avaliação não transparentes e a dificuldade em acompanhar a execução real dos projetos criam uma cortina de opacidade que prejudica o escrutínio público.

O que esta investigação revela é um paradoxo intrigante: Portugal está na vanguarda tecnológica do hidrogénio verde, mas a narrativa pública permanece ancorada em visões simplistas e desatualizadas. Enquanto os media se concentram em discutir se devemos ou não ter mais painéis solares, uma revolução industrial silenciosa está em marcha, capaz de transformar radicalmente a nossa economia e a nossa posição no panorama energético europeu.

Os próximos 24 meses serão decisivos. Os projetos-piloto vão dar lugar a implementações em escala comercial, os primeiros postos de abastecimento vão abrir ao público e os acordos de exportação vão começar a produzir resultados tangíveis. A questão que se coloca é: os portugueses vão acompanhar esta transformação através de uma cobertura jornalística aprofundada, ou vão descobrir tardiamente que o país mudou enquanto estavam distraídos?

O hidrogénio verde representa muito mais do que uma alternativa energética - é uma oportunidade única para Portugal se afirmar como player global numa tecnologia do futuro. Mas para que esta oportunidade seja plenamente aproveitada, é essencial que a sociedade compreenda o que está realmente em jogo. E isso exige um jornalismo que vá além dos comunicados de imprensa e dos anúncios governamentais.

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