Enquanto os holofotes da transição energética se mantêm focados nos painéis solares e nas turbinas eólicas, uma revolução mais silenciosa — mas potencialmente mais transformadora — está a ganhar forma nos laboratórios e nas salas de reunião de Lisboa a Sines. O hidrogénio verde, produzido através da eletrólise da água usando eletricidade renovável, deixou de ser uma miragem tecnológica para se tornar no cavalo de batalha da descarbonização industrial e do transporte pesado. Portugal, com o seu abundante sol e vento, posiciona-se não como um mero espectador, mas como um potencial hub europeu desta nova economia.
A corrida começou em serio. Grandes projetos, como o da empresa portuguesa Fusion Fuel em Sines ou as ambiciosas parcerias anunciadas pela Galp e pela EDP, não são meros comunicados de imprensa. Representam investimentos que se contam em centenas de milhões de euros e empregos qualificados que podem revitalizar regiões industriais. O Observador tem seguido de perto as complexas negociações com Bruxelas para o financiamento destas infraestruturas, um jogo diplomático onde Portugal tenta garantir que o seu potencial natural se traduz em liderança económica real, e não apenas em estatísticas de produção de eletricidade limpa.
No entanto, por detrás do otimismo oficial, escondem-se desafios monumentais. O Expresso tem investigado o 'custo oculto' do hidrogénio verde: a necessidade de uma rede de distribuição completamente nova, desde pipelines dedicados até portos adaptados para a exportação. A eletrólise em larga escala é também uma esfomeada consumidora de água doce, levantando questões prementes sobre a gestão de um recurso cada vez mais escasso no sul da Europa, como o Público tem alertado nos seus relatos sobre a seca extrema.
O setor dos transportes é onde a disrupção pode ser mais visível para o cidadão comum. Camiões, autocarros e até comboios movidos a hidrogénio começam a circular em projetos-piloto, como os reportados pelo Jornal de Negócios. A grande promessa? Tempos de abastecimento comparáveis aos dos veículos a diesel e autonomias superiores às das baterias elétricas atuais, tornando-o ideal para o transporte de mercadorias de longo curso. Mas a pergunta que ecoa nas redações do Dinheiro Vivo é: quem vai pagar a conta inicial pelos veículos e pelas estações de abastecimento? Os preços, por enquanto, são proibitivos sem subsídios massivos.
A geopolítica também entra em cena. A ECO Sapo.pt analisou como a guerra na Ucrânia acelerou brutalmente a procura europeia por alternativas ao gás natural russo. O hidrogénio verde surge como uma peça-chave nesta nova equação de segurança energética. Portugal pode assim tornar-se não apenas um produtor para consumo interno, mas um exportador estratégico para o norte da Europa, através de corredores como o que está a ser planeado entre Sines e Roterdão. Esta oportunidade transforma o debate de uma questão puramente ambiental para uma de soberania económica e influência política no seio da UE.
Mas será tudo demasiado bom para ser verdade? Críticos, citados em várias das publicações, apontam para a ineficiência energética do processo: perde-se uma parte significativa da eletricidade renovável original na conversão. Argumentam que essa energia poderia ser usada de forma mais direta e eficiente na rede elétrica geral. A aposta no hidrogénio, alertam, não pode servir de desculpa para adiar a eletrificação direta de tudo o que for possível, dos automóveis ligeiros aos sistemas de aquecimento doméstico.
O que está em jogo vai muito além de mais uma tecnologia limpa. Está em causa a reindustrialização de Portugal com base no conhecimento e na inovação, a criação de uma cadeia de valor que vá da investigação universitária (onde equipas portuguesas são reconhecidas internacionalmente) à fabricação de componentes de alta tecnologia e à gestão de projetos complexos. É uma janela de oportunidade para deixar de ser um país que segue tendências e passar a ser um país que as define.
O caminho está traçado nos planos nacionais e europeus, mas o terreno é acidentado. A próxima década será decisiva. Enquanto os cidadãos se habituam aos painéis solares nos telhados, nos bastidores desenrola-se uma batalha técnica, financeira e política que vai determinar se Portugal aproveita esta onda ou se fica a ver a revolução do hidrogénio verde passar ao largo, exportando os seus eletrões baratos e importando depois o hidrogénio caro fabricado por outros. A aposta está feita. Agora, é tempo de a executar.
A revolução silenciosa do hidrogénio verde: Portugal no epicentro da nova corrida energética