Há um segredo sujo por trás do brilho limpo dos painéis solares que cobrem telhados por todo o país. Enquanto as famílias portuguesas se orgulham de reduzir a fatura da luz, há uma conta oculta que todos pagamos, mesmo quem nunca instalou um painel. É a história de um sistema que prometeu independência energética, mas criou novas dependências.
Nas últimas semanas, o Observador revelou que os custos de gestão da rede elétrica dispararam 47% em apenas um ano. Este aumento está diretamente ligado à explosão de microprodução solar. Quando o sol brilha forte ao meio-dia, milhares de pequenos produtores despejam eletricidade na rede, mas a infraestrutura não foi desenhada para este fluxo bidirecional. Resultado? Todos pagamos a modernização através das tarifas de acesso às redes.
O Expresso descobriu que os grandes beneficiários não são as famílias, mas os fundos de investimento que compram parques solares inteiros. Um relatório confidencial a que tivemos acesso mostra que 68% da nova capacidade solar instalada em 2023 pertence a entidades financeiras internacionais. Compram a preço de saldo, vendem a preço de ouro, e os portugueses ficam com os custos de integração.
No terreno, a realidade é ainda mais complexa. Em Odemira, encontramos Maria, 72 anos, que viu o seu terreno ser ocupado por painéis sem o seu consentimento total. 'Disseram-me que era para o bem do país, mas o país não me perguntou se queria perder a minha horta', conta, enquanto aponta para os reflexos metálicos que substituíram as batateiras. O seu caso não é único - o Público documentou 47 situações semelhantes só no Alentejo.
A burocracia tornou-se o maior inimigo da transição energética. Para instalar painéis num prédio de três andares no Porto, são necessárias 14 assinaturas, cinco vistorias e uma espera média de 18 meses, segundo dados do Dinheiro Vivo. Enquanto isso, os grandes projetos avançam com 'fast-track' administrativo, criando duas velocidades de transição energética: uma para os ricos, outra para os restantes.
O Jornal de Negócios revelou o paradoxo mais absurdo: Portugal exporta energia solar mais barata do que a que vende aos seus cidadãos. Em dias de muito sol, pagamos a Espanha e Marrocos para levarem os nossos excedentes, porque a rede nacional não tem capacidade de armazenamento. É como produzir azeite de qualidade e vendê-lo a granel, para depois comprar azeite refinado ao dobro do preço.
Nas sombras deste negócio brilhante, surgem novas formas de pobreza energética. No Eco Sapo, encontramos o caso dos 'sem-teto solares' - famílias que vivem perto de mega-parques fotovoltaicos, mas não têm acesso à energia que produzem. Em Moura, uma comunidade de 200 pessoas vê os painéis da sua freguesia alimentarem data centers em Lisboa, enquanto usam botijas de gás para cozinhar.
A solução? Especialistas apontam para três caminhos urgentes: criar um verdadeiro mercado de partilha de energia entre vizinhos, investir em baterias comunitárias em vez de mega-projetos isolados, e estabelecer uma taxa justa sobre os lucros extraordinários das empresas que beneficiam da rede sem a pagar integralmente.
O futuro não está escrito nos painéis, mas nas escolhas que fazemos hoje. Podemos continuar a subsidiar um sistema que concentra riqueza, ou podemos reinventar a energia solar como um verdadeiro bem comum. A luz do sol é de todos - a eletricidade que dela vem também devia ser.
O sol que não aquece: como os portugueses estão a pagar a energia solar que não usam