Nas estradas nacionais, os anúncios multiplicam-se: 'Energia solar grátis', 'Pague zero na eletricidade', 'Instalação em 24 horas'. As promessas soam como música para ouvidos cansados de contas da luz que não param de subir. Mas por trás deste coro sedutor, esconde-se uma realidade bem menos brilhante. Investigámos durante três meses o mercado da energia solar em Portugal e descobrimos que muitos portugueses estão a comprar gato por lebre.
A primeira armadilha está na matemática básica que ninguém faz. Um sistema fotovoltaico de 3 kW, suficiente para uma família de quatro pessoas, custa em média 5.000 euros. Os vendedores mais agressivos garantem o retorno do investimento em cinco anos. O que não contam é que os painéis perdem 0,5% de eficiência por ano, que os inversores precisam de ser substituídos a cada dez anos, e que o preço da manutenção anual ronda os 200 euros. A conta real? O retorno acontece, no melhor dos cenários, em oito a dez anos - quando a garantia dos equipamentos já expirou.
A segunda falácia é geográfica. Portugal tem sol, sim, mas não tem o mesmo sol em todo o lado. Enquanto no Algarve um painel produz em média 1.500 kWh por ano, no Minho essa produção cai para 1.100 kWh. A diferença parece pequena no papel, mas traduz-se em menos 100 euros de poupança anual. E isto sem contar com os microclimas, a orientação dos telhados, ou as sombras das árvores que crescem quando ninguém está a ver.
O terceiro engodo vem disfarçado de ecologia. 'Seja amigo do ambiente', proclamam os folhetos. O que não mostram são os relatórios da Agência Portuguesa do Ambiente que revelam que a produção dos painéis solares emite tanto CO2 como um carro a gasolina a circular 50.000 quilómetros. Só ao fim de dois anos de funcionamento é que o sistema começa a ter saldo positivo em termos ambientais. E o destino final dos painéis? Portugal ainda não tem uma solução para reciclar os milhões de unidades que vão chegar ao fim da vida útil na próxima década.
Mas a maior surpresa da nossa investigação veio dos números oficiais. A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos confirmou-nos que 30% das instalações feitas no último ano apresentam irregularidades. Desde painéis mal fixados que voam com o primeiro temporal, a cablagem que não cumpre as normas de segurança, passando por inversores pirateados que queimam ao primeiro pico de tensão. O setor cresceu tão rápido que a fiscalização não consegue acompanhar.
A solução? Não está em desistir da energia solar, mas em abordá-la com os pés bem assentes na terra. Exigir três orçamentos de empresas diferentes, verificar as credenciais no livro de reclamações online, pedir referências a clientes anteriores. E acima de tudo, desconfiar das promessas milagrosas. A transição energética é necessária, mas não pode ser feita à custa dos bolsos dos portugueses mais vulneráveis.
O futuro, contudo, reserva novidades interessantes. As comunidades de energia renovável, que permitem partilhar o excesso de produção entre vizinhos, começam a surgir em aldeias do interior. As baterias de segunda vida, reutilizadas de carros elétricos, prometem armazenar energia a custos mais baixos. E os painéis de nova geração, com eficiências acima dos 25%, estão a caminho do mercado.
Enquanto isso, nas varandas e telhados de Portugal, uma revolução silenciosa continua. Com mais perguntas do que respostas, mas com a certeza de que o sol, esse, não engana. Cabe a nós aprender a colhê-lo sem cair nas sombras do marketing agressivo.
O sol que não aquece: como os portugueses estão a ser enganados pelos painéis solares baratos