Nas ruas de Lisboa, Porto ou Braga, os operários abrem valas com uma frequência quase diária. Não é apenas para reparar condutas antigas, mas para enterrar o futuro: cabos de fibra ótica que prometem velocidades de internet capazes de transformar a forma como trabalhamos, estudamos e nos divertimos. Enquanto isso, nas alturas das cidades, as antenas de 5G multiplicam-se silenciosamente, preparando-se para uma revolução que vai muito além de descarregar filmes em segundos.
A cobertura de fibra ótica em Portugal cresceu 47% nos últimos três anos, segundo dados da Anacom, mas a distribuição geográfica continua desigual. Enquanto as áreas urbanas estão quase totalmente cobertas, muitas aldeias do interior ainda dependem de ligações por satélite ou rádio, criando uma nova forma de exclusão digital. "É como ter água canalizada apenas para alguns," comenta um técnico de uma das principais operadoras, que prefere não se identificar. "O investimento é grande e o retorno nas zonas rurais é mais lento."
O 5G, por sua vez, traz promessas que soam a ficção científica: cirurgias remotas realizadas por robôs controlados a quilómetros de distância, fábricas inteligentes onde as máquinas comunicam entre si em milissegundos, carros autónomos que evitam acidentes antes mesmo de os humanos os perceberem. Mas a implementação esbarra em obstáculos práticos: a necessidade de milhares de novas antenas, preocupações com a saúde pública (ainda que a ciência não encontre riscos) e, claro, o custo astronómico para as operadoras.
Nos bastidores deste setor, uma guerra silenciosa está a ser travada. As três grandes operadoras – MEO, NOS e Vodafone – competem não apenas por clientes, mas por frequências no espectro radioelétrico, um recurso limitado e caríssimo. O leilão do 5G, realizado em 2021, rendeu ao Estado mais de 566 milhões de euros, mas deixou as operadoras com dívidas que terão de ser pagas através dos preços aos consumidores. "É um jogo de xadrez onde cada movimento custa milhões," explica uma fonte do setor que acompanhou as negociações.
Enquanto isso, surgem novos players que ameaçam o status quo. A Nowo, adquirida pela MasMovil, está a expandir a sua rede com agressividade, oferecendo pacotes mais baratos. A Digi, operadora romena que entrou no mercado português no ano passado, promete "preços que fazem tremer os gigantes". E no horizonte, empresas como a SpaceX, de Elon Musk, preparam-se para oferecer internet por satélite em todo o território, ignorando completamente a necessidade de infraestruturas terrestres.
Para o consumidor comum, esta competição traduz-se em ofertas cada vez mais tentadoras: pacotes com internet a 1 Gbps por menos de 30 euros por mês, televisão com centenas de canais em 4K, telemóveis com dados ilimitados. Mas há um lado menos visível: a saturação do mercado está a levar a práticas questionáveis, como a venda agressiva porta-a-porta ou contratos com letras pequenas que prendem os clientes durante anos.
A sustentabilidade é outro tema quente. As operadoras consomem quantidades enormes de energia – os data centers sozinhos são responsáveis por cerca de 2% do consumo elétrico global. Em resposta, a Vodafone anunciou que até 2025 toda a sua energia virá de fontes renováveis. A NOS instalou painéis solares em várias centrais técnicas. Mas os críticos apontam que o próprio conceito de "upgrade" tecnológico constante – trocar de telemóvel a cada dois anos, substituir routers – gera um lixo eletrónico monumental.
O que significa tudo isto para o futuro próximo? Especialistas preveem que nos próximos cinco anos, a fibra ótica chegará a 95% dos lares portugueses, mas o verdadeiro salto acontecerá com a combinação entre fibra e 5G. Imagine trabalhar de uma aldeia no Gerês com a mesma eficiência que num escritório em Lisboa, ou assistir a uma consulta médica especializada sem sair de casa, com qualidade de imagem que permite ao médico ver detalhes mínimos. As possibilidades são infinitas, mas dependem de investimentos contínuos e de uma regulação inteligente.
Num café no Chiado, um grupo de estudantes debate estes temas enquanto partilham uma ligação Wi-Fi. Um deles, futuro engenheiro de telecomunicações, sorri: "Os meus avós tinham uma linha telefónica partilhada com os vizinhos. Os meus pais viram chegar a internet discada. Eu cresci com o 4G. Os meus filhos vão achar natural que os objetos à sua volta estejam todos conectados. A questão não é se a tecnologia vai avançar, mas se vamos saber usá-la para melhorar a vida das pessoas."
O setor das telecomunicações em Portugal está, assim, numa encruzilhada. Pode seguir o caminho fácil – concentrar-se nas áreas lucrativas, ignorando as assimetrias regionais – ou pode assumir um papel transformador, levando a conectividade a todos os cantos do país e preparando Portugal para a próxima revolução digital. A escolha, como a velocidade da luz numa fibra ótica, está a viajar rapidamente na nossa direção.
O futuro das telecomunicações em Portugal: entre a fibra ótica e o 5G, o que nos espera?