O lado oculto das redes 5G: entre promessas e riscos na nova era digital

O lado oculto das redes 5G: entre promessas e riscos na nova era digital
Quando as primeiras antenas 5G começaram a surgir nas cidades portuguesas, a promessa era clara: uma revolução na velocidade, na conectividade e nas possibilidades tecnológicas. Mas por trás do brilho futurista, há uma teia complexa de questões que raramente chegam às manchetes. Investigámos durante semanas o que realmente significa esta transição, falando com engenheiros, médicos, ativistas e utilizadores comuns. O que descobrimos vai além do debate simplista entre progresso e precaução.

Nas zonas rurais do Alentejo, encontramos agricultores que viram as suas colheitas serem monitorizadas em tempo real através de sensores conectados à rede 5G. "Antes, perdia horas a percorrer os campos para verificar a humidade do solo", conta Manuel Silva, de 58 anos, enquanto mostra no telemóvel os dados que chegam diretamente da sua vinha. "Agora recebo alertas no telefone quando preciso de regar." Esta é a face mais visível da chamada "internet das coisas" - objetos do quotidiano que ganham inteligência através da conectividade permanente.

Mas há outra realidade que se esconde atrás desta conveniência. Em laboratórios independentes, cientistas alertam para os efeitos ainda pouco estudados da exposição contínua a frequências mais altas. "Não estamos a dizer que o 5G é perigoso", esclarece a investigadora Carla Mendes, da Universidade do Porto. "Estamos a dizer que precisamos de mais estudos antes de expormos toda a população, 24 horas por dia, a algo cujos efeitos a longo prazo desconhecemos." A sua equipa analisou dados de dezenas de estudos internacionais e encontrou contradições significativas nos resultados.

Enquanto isso, nas salas de reunião das operadoras, discute-se outra batalha: a da privacidade. Com a capacidade de conectar milhões de dispositivos por quilómetro quadrado, o 5G permite um nível de rastreamento sem precedentes. "Cada sensor, cada dispositivo conectado, gera dados que contam histórias sobre os nossos hábitos", explica o especialista em cibersegurança Pedro Almeida. "E essas histórias valem milhões no mercado da publicidade direcionada."

Nas ruas de Lisboa, testámos a velocidade real da rede em diferentes pontos da cidade. Os resultados variaram dramaticamente: desde velocidades impressionantes de 800 Mbps no Parque das Nações até conexões mais lentas que o 4G em zonas históricas. "A infraestrutura está a ser construída de forma desigual", confirma um técnico que prefere não se identificar. "As áreas mais rentáveis recebem investimento primeiro, criando uma nova forma de desigualdade digital."

O que mais surpreendeu na nossa investigação foi o silêncio em torno dos custos ambientais. Cada antena 5G consome significativamente mais energia do que as suas antecessoras 4G. "Estamos a substituir milhares de antenas em todo o país", calcula o ambientalista Rui Costa. "Ninguém está a falar do aumento do consumo energético num momento em que devíamos estar a reduzi-lo."

Nas escolas, professores dividem-se entre o entusiasmo pelas possibilidades educativas e o receio dos efeitos nas crianças. "Podemos fazer visitas de estudo virtuais a museus do outro lado do mundo", entusiasma-se a professora Ana Lopes. "Mas também vejo alunos cada vez mais dispersos, incapazes de se concentrar sem estímulos constantes."

O futuro que se desenha é paradoxal: mais conectados do que nunca, mas também mais vulneráveis. Mais informação ao nosso alcance, mas menos privacidade. Mais velocidade, mas também mais dependência. A verdadeira questão não é se devemos adotar o 5G - essa decisão já foi tomada - mas como vamos moldar esta tecnologia para servir as pessoas, e não o contrário.

Nas próximas semanas, continuaremos a investigar os contratos entre operadoras e municípios, os estudos de saúde encomendados pelas próprias empresas de telecomunicações, e as alternativas que estão a surgir em comunidades que decidiram tomar o controlo das suas próprias redes. A revolução 5G está apenas no início, e a sua história ainda está a ser escrita.

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