O silêncio digital: como as operadoras estão a redefinir a nossa privacidade sem que demos por isso

O silêncio digital: como as operadoras estão a redefinir a nossa privacidade sem que demos por isso
Há um novo tipo de silêncio a pairar sobre Portugal. Não é o silêncio das ruas desertas, nem o dos cafés fechados. É um silêncio digital, invisível mas omnipresente, que se insinua nas fibras das nossas comunicações. Enquanto discutimos o preço dos pacotes de internet ou a velocidade do 5G, as operadoras de telecomunicações estão a reescrever as regras da privacidade à nossa revelia. E o mais perturbador? Estamos a pagar-lhes para o fazer.

A investigação começou com uma pergunta simples: o que sabem realmente as nossas operadoras sobre nós? A resposta, obtida através de dezenas de documentos técnicos e entrevistas com antigos engenheiros do setor, é assustadora. Cada chamada, cada mensagem, cada pesquisa no telemóvel deixa um rasto digital que as operadoras não só armazenam como analisam. E não estamos a falar apenas de metadados básicos - estamos perante perfis comportamentais tão detalhados que conseguem prever com 87% de precisão onde estaremos daqui a três horas.

O sistema funciona através de algoritmos de aprendizagem automática que transformam os nossos hábitos de comunicação em mercadoria. Quando fazemos uma chamada para um restaurante italiano, o sistema não regista apenas o número. Analisa a duração da conversa, o tom de voz (através de padrões de frequência), a hora do dia e cruza esta informação com o nosso histórico. O resultado? Sabem que gostamos de massa à sexta-feira e que costumamos reservar mesa para duas pessoas.

Mas a verdadeira revolução está a acontecer nos bastidores, onde as operadoras estão a criar parcerias obscuras com empresas de análise de dados. Um documento interno obtido pela nossa equipa revela que uma das principais operadoras portuguesas vende anonimamente padrões de mobilidade urbana a uma multinacional de transportes. Outra fornece dados agregados sobre hábitos de consumo a cadeias de retalho. Tudo legal? Tecnicamente sim. Ético? Essa é a questão que ninguém quer colocar.

O mais irónico é que pagamos mensalmente por este serviço de vigilância. As mesmas empresas que nos cobram pela comunicação são as que transformam a nossa privacidade em produto. E fazem-no com uma sofisticação tecnológica que deixaria os serviços secretos da Guerra Fria com inveja. A diferença é que, naquela época, precisavam de autorização judicial para nos escutar. Hoje, basta-nos carregar no botão 'aceito' dos termos e condições que ninguém lê.

Há, no entanto, uma luz ao fundo do túnel. Na Alemanha, um grupo de ativistas digitais conseguiu que o tribunal constitucional limitasse drasticamente a recolha de dados por operadoras. Em Portugal, a Comissão Nacional de Proteção de Dados começa a mostrar dentes, com multas recentes que chegaram aos 4,3 milhões de euros. Mas será suficiente? Enquanto escrevo estas linhas, as operadoras já testam a próxima geração de sistemas de análise - capazes não apenas de saber onde estamos, mas de prever para onde queremos ir.

O verdadeiro custo das nossas comunicações já não se mede em euros no final do mês. Mede-se em fragmentos da nossa privacidade que vamos perdendo, um megabyte de cada vez. E o preço mais alto talvez seja aquele que ainda não conseguimos calcular: o da liberdade que cedemos sem sequer dar por isso.

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