O lado oculto do crédito ao consumo: como os bancos lucram com a nossa impaciência

O lado oculto do crédito ao consumo: como os bancos lucram com a nossa impaciência
Num país onde o crédito ao consumo cresce a dois dígitos, poucos param para desvendar o mecanismo que transforma a nossa urgência em lucro bancário. Os números oficiais mostram um aumento de 12% no último ano, mas escondem uma realidade mais complexa: enquanto as famílias portuguesas contraem mais dívida, os bancos registam margens recorde nestes produtos.

A investigação revela que os spreads médios no crédito pessoal em Portugal são 40% superiores à média europeia. Um empréstimo de 5.000 euros pode custar mais 600 euros aqui do que em Espanha ou França. Os especialistas apontam para uma combinação perigosa: baixa literacia financeira e marketing agressivo que vende soluções rápidas para problemas complexos.

Nos bastidores, os departamentos comerciais recebem comissões que variam consoante o tipo de crédito vendido. Os produtos com taxas mais elevadas – como os créditos com reembolso em 84 meses – geram prémios maiores para os gestores de conta. Esta estrutura cria um incentivo perverso: em vez de aconselhar a melhor solução, muitos profissionais recomendam a mais lucrativa.

A tecnologia tornou o processo ainda mais sedutor. Com apenas três cliques no homebanking, qualquer português pode contrair dívida sem falar com um humano. As plataformas usam algoritmos que analisam o nosso comportamento digital para prever a nossa vulnerabilidade financeira. Os momentos de maior fragilidade – fim do mês, vésperas de férias – são alvo preferencial de campanhas personalizadas.

O Banco de Portugal tem emitido alertas sobre o crescimento descontrolado deste tipo de crédito, mas as medidas de contenção parecem insuficientes. Enquanto isso, surgem novas modalidades que escapam à regulação tradicional. Os créditos entre particulares através de plataformas online, por exemplo, operam num limbo jurídico preocupante.

As consequências são visíveis nos tribunais. Os processos de insolvência familiar aumentaram 18% no último ano, e em 60% dos casos o crédito ao consumo aparece como fator determinante. As histórias repetem-se: começou com um empréstimo para férias, continuou com outro para o carro, e terminou com a casa em risco.

Mas há luz no fim do túnel. Algumas instituições começam a adotar políticas mais responsáveis, recusando crédito a clientes já sobreendividados. As fintechs desenvolvem alternativas mais transparentes, com taxas fixas e sem comissões ocultas. E a educação financeira nas escolas começa a dar os primeiros frutos.

O verdadeiro desafio, contudo, é cultural. Precisamos de substituir a cultura do 'compre agora, pague depois' por uma mentalidade de planeamento a longo prazo. Enquanto associarmos o crédito a soluções mágicas em vez de instrumentos financeiros sérios, continuaremos a alimentar uma máquina que prospera com a nossa impaciência.

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