Num cenário económico marcado por taxas de juro voláteis e incertezas geopolíticas, o mercado de crédito em Portugal está a atravessar uma transformação silenciosa mas profunda. Enquanto os consumidores se debatem com as subidas das prestações da habitação, os bancos estão a desenhar produtos financeiros que pouco têm a ver com os empréstimos tradicionais que conhecemos. Esta é uma história sobre algoritmos, dados pessoais e uma nova forma de avaliar o risco que está a redefinir quem tem acesso ao dinheiro.
Nas salas de reuniões dos principais grupos bancários portugueses, discute-se menos sobre spread e mais sobre machine learning. Os departamentos de risco estão a ser invadidos por cientistas de dados que analisam milhares de variáveis - desde os hábitos de compra online até aos padrões de mobilidade - para criar perfis de crédito mais precisos do que qualquer análise tradicional. O resultado? Um sistema onde duas pessoas com o mesmo salário e a mesma profissão podem ter condições de empréstimo radicalmente diferentes.
Esta revolução tecnológica está a criar uma nova divisão no acesso ao crédito. Por um lado, temos os 'super-clientes' - perfis digitais impecáveis que recebem propostas personalizadas com taxas quase irrisórias. Por outro, uma faixa da população que, apesar de ter rendimentos estáveis, fica excluída por ter padrões de consumo considerados 'atípicos' pelos algoritmos. São os novos invisíveis do sistema financeiro.
Mas a transformação não para aqui. Nos bastidores, assiste-se ao surgimento de plataformas de crédito colaborativo que conectam directamente investidores a particulares, contornando completamente os bancos. Estas fintechs estão a ganhar terreno especialmente no crédito a pequenas empresas, onde a burocracia bancária tradicional continua a ser um obstáculo intransponível para muitos empreendedores.
O mais curioso é que esta disrupção está a acontecer enquanto os bancos tradicionais mantêm uma fachada de normalidade. Nas agências, os gestores de conta continuam a falar das mesmas taxas e prazos, mas nos sistemas informáticos corre uma lógica completamente nova. É como se existissem dois mundos paralelos: o das relações pessoais com o banco e o dos algoritmos que realmente decidem quem merece crédito.
Esta dualidade está a criar situações paradoxais. Conhecemos o caso de uma designer freelancer que, após ser recusada num banco tradicional por 'rendimentos irregulares', obteve um empréstimo através de uma plataforma digital em 48 horas. O segredo? A plataforma analisou o seu portfólio online, as recomendações no LinkedIn e até a consistência dos seus posts nas redes sociais - factores que nenhum banco tradicional consideraria.
Para os especialistas em protecção de dados, esta nova realidade levanta questões alarmantes. Até que ponto estamos a trocar a nossa privacidade por melhores condições de crédito? Os algoritmos que analisam os nossos hábitos digitais são transparentes? E quem responde quando um sistema automatizado recusa um crédito com base em critérios que ninguém consegue explicar?
Enquanto a Comissão Europeia prepara nova legislação sobre inteligência artificial no sector financeiro, em Portugal a discussão ainda é tímida. Os reguladores acompanham a evolução tecnológica, mas admitem que a velocidade da inovação está a desafiar os quadros legais existentes. O resultado é uma zona cinzenta onde as fintechs operam com mais liberdade do que os bancos tradicionais.
No terreno, esta revolução está a criar oportunidades inesperadas. Pequenas empresas do interior que há anos lutavam por financiamento estão a descobrir nas plataformas digitais uma alternativa viável. Agricultores, artesãos e micro-empresários estão a conseguir crédito baseado no potencial dos seus negócios, não apenas no seu historial bancário.
Mas há um lado sombrio. As mesmas tecnologias que democratizam o acesso ao crédito também podem perpetuar desigualdades. Algoritmos treinados com dados históricos tendem a reproduzir os mesmos preconceitos do passado. Sem uma vigilância cuidadosa, corremos o risco de criar um sistema de crédito mais eficiente, mas também mais excludente.
O futuro do crédito em Portugal está a ser escrito agora, nos códigos de programação e nas bases de dados. A questão que se coloca é se seremos capazes de construir um sistema que combine a eficiência da tecnologia com a justiça e a transparência que uma sociedade democrática exige. A resposta determinará não apenas quem tem acesso ao dinheiro, mas que tipo de economia queremos construir para as próximas décadas.
O lado oculto do crédito: como os bancos estão a reinventar o financiamento em Portugal