Os relatórios oficiais mostram números, percentagens e gráficos. Mas a verdadeira história da educação portuguesa está escrita nas salas de aula vazias de professores, nos corredores onde os alunos carregam mochilas pesadas de expectativas, e nas cozinhas onde famílias decidem entre pagar a internet para aulas online ou o jantar. Enquanto o Ministério da Educação apresenta estatísticas de sucesso, uma investigação pelos bastidores revela um sistema à beira do colapso silencioso.
Nas escolas do interior, encontrei professores que lecionam cinco disciplinas diferentes, nenhuma delas sua área de formação. "Chamam-nos de professores coringa", contou-me uma docente de 52 anos no Alentejo, que pediu anonimato por medo de represálias. "Esta manhã dei História, à tarde Matemática, e amanhã tentarei explicar Física sem ter aberto um livro da área desde a universidade." O fenómeno não é isolado - segundo dados não publicados que obtive através de fontes dentro das direções regionais, mais de 30% das escolas rurais têm pelo menos um docente nesta situação.
A obsessão pelos rankings esconde outro problema estrutural: a fuga de cérebros para o setor privado acelerou 47% nos últimos três anos. Conversei com uma diretora de agrupamento no Porto que perdeu sete dos seus melhores professores para colégios internacionais no mesmo mês. "Oferecem o dobro do salário, turmas menores e autonomia pedagógica real", explicou, enquanto mostrava as cartas de demissão alinhadas na sua secretária como um testemunho mudo do êxodo.
A tecnologia prometida como solução universal criou novas divisões. Visitei uma família em Oliveira do Hospital onde três filhos partilham um telemóvel para aceder às plataformas educativas. "O mais velho tem prioridade porque está no 12º ano", disse a mãe, empregada de limpeza, com uma mistura de orgulho e resignação. Enquanto isso, nas escolas privadas de Lisboa, os alunos têm acesso a laboratórios de realidade virtual e tutoriais com professores das melhores universidades europeias via Zoom. A desigualdade digital não é apenas sobre ter internet - é sobre ter oportunidades.
O mais perturbador talvez seja o silêncio institucional sobre a saúde mental. Psicólogos escolares confessaram-me, sempre com receio de serem identificados, que os casos de ansiedade e depressão entre adolescentes duplicaram desde a pandemia, mas os recursos humanos mantiveram-se os mesmos. "Atendemos cada aluno durante 20 minutos por mês em média", desabafou um profissional com 15 anos de experiência. "É como tentar apagar um incêndio florestal com um copo de água."
Nos laboratórios das universidades, investigadores desenvolvem métodos pedagógicos inovadores que nunca chegam às salas de aula. Encontrei uma equipa da Universidade do Minho que criou um sistema de aprendizagem adaptativa com resultados impressionantes em escolas-piloto, mas o projeto está parado há dois anos à espera de financiamento. "Inventamos soluções para problemas que o sistema não reconhece como urgentes", lamentou o coordenador, mostrando-me gráficos que pareciam saídos de um país nórdico, não de Portugal.
Os pais tornaram-se professores auxiliares sem formação, currículo ou apoio. Num grupo de WhatsApp de encarregados de educação que monitorei durante um mês, circulavam diariamente dezenas de exercícios, explicações caseiras e desabafos. "Já não sei se sou mãe, professora ou terapeuta", escreveu uma das participantes às 2h da manhã, depois de ajudar o filho a estudar para um teste de Filosofia.
A verdade inconveniente é esta: Portugal tem duas educações paralelas. A dos discursos políticos, relatórios otimistas e cerimónias de entrega de prémios. E a das salas improvisadas, professores exaustos e alunos que navegam entre expectativas contraditórias. Os números podem mostrar melhorias, mas as histórias contam uma narrativa diferente - uma de resistência quotidiana num sistema que exige cada vez mais enquanto oferece cada vez menos.
Enquanto escrevo estas linhas, recebo uma mensagem de uma professora do Norte: "Hoje comprei material escolar para três alunos com o meu dinheiro. Se contasse à direção, seria repreendida por criar precedentes. Mas como dizer não a uma criança que vem para a escola sem cadernos?" A resposta, tal como o futuro da educação portuguesa, continua por escrever.
O que os dados não contam sobre a educação em Portugal: histórias por trás dos números