A revolução silenciosa: como os portugueses estão a reinventar a energia sem esperar pelo governo

A revolução silenciosa: como os portugueses estão a reinventar a energia sem esperar pelo governo
Enquanto os políticos discutem estratégias energéticas em gabinetes com ar condicionado, uma transformação radical está a acontecer nas varandas, telhados e quintais de Portugal. Não é um movimento organizado com manifestações ou comunicados de imprensa, mas uma revolução silenciosa liderada por cidadãos comuns que decidiram tomar as rédeas do seu próprio futuro energético.

Nas traseiras de um prédio em Benfica, um grupo de vizinhos instalou painéis solares partilhados que alimentam as áreas comuns do edifício. No Alentejo, um agricultor transformou terrenos marginais numa pequena central fotovoltaica que vende energia à rede. Em Braga, uma cooperativa de consumidores negociou directamente com produtores eólicos, cortando os intermediários e reduzindo a factura em 30%. Estas não são histórias isoladas, mas sintomas de uma mudança profunda na relação dos portugueses com a energia.

O que está a impulsionar esta revolução não é apenas o preço da electricidade, que continua a pesar no orçamento familiar, mas uma desconfiança crescente nas soluções centralizadas. "Percebemos que esperar pelo governo ou pelas grandes empresas era como esperar pelo comboio em linha desactivada", conta Maria João, arquitecta de 42 anos que liderou a instalação colectiva no seu bairro. "Decidimos fazer por nós mesmos, e descobrimos que era mais simples do que pensávamos."

A tecnologia tornou-se acessível de formas impensáveis há cinco anos. Micro-inversores que permitem monitorizar cada painel através do telemóvel, baterias de lítio com preços em queda livre, plataformas de partilha de energia entre vizinhos - ferramentas que democratizam a produção e o consumo. "É a Uberização da energia", brinca Pedro Santos, engenheiro que deixou uma multinacional para criar uma startup de gestão energética comunitária. "Só que aqui, em vez de carros, partilhamos kilowatts."

Mas esta revolução enfrenta obstáculos burocráticos dignos de Kafka. Um proprietário no Porto esperou oito meses pela autorização da câmara para instalar painéis numa cobertura classificada. Uma comunidade rural no interior algarvio viu o seu projecto de biomassa parado durante um ano à espera de uma licença ambiental. "Temos tecnologia do século XXI, legislação do século XX e mentalidade do século XIX", desabafa uma técnica municipal que pede anonimato.

O maior paradoxo está nos incentivos. Enquanto o governo anuncia fundos milionários para grandes projectos renováveis, os cidadãos que querem produzir a sua própria energia enfrentam um labirinto de impostos e taxas. O IVA sobre equipamentos solares, a contribuição audiovisual aplicada à factura da luz mesmo quando se produz energia própria, os custos de ligação à rede que podem ultrapassar o valor da instalação - são barreiras que desencorajam os mais motivados.

Ainda assim, a mudança é imparável. Associações de moradores, escolas, pequenas empresas e até paróquias estão a juntar-se para criar micro-redes locais. Em Viseu, três restaurantes partilham uma instalação solar e uma bateria comum, reduzindo a sua dependência da rede durante as horas de pico. No Fundão, a câmara municipal criou uma comunidade energética que inclui edifícios públicos e habitações sociais.

O que estas iniciativas têm em comum é uma visão que vai além da poupança na factura. "Não se trata apenas de dinheiro", explica Sofia Mendes, socióloga que estuda estes movimentos. "É sobre autonomia, resiliência e reconexão com o território. As pessoas querem sentir que controlam algo tão fundamental como a energia que consomem."

Esta revolução silenciosa está a redefinir o que significa ser consumidor energético. Já não somos apenas clientes que pagam uma factura no final do mês, mas potencialmente produtores, gestores e até comerciantes de energia. Plataformas blockchain estão a ser testadas para permitir transacções peer-to-peer, onde um vizinho pode vender o seu excedente solar directamente a outro, sem passar pela rede tradicional.

O impacto vai além do sector energético. Bancos começam a oferecer créditos específicos para eficiência energética, seguradoras desenvolvem produtos para comunidades de energia, imobiliária incorpora a autoprodução como valor acrescentado. "Uma casa com painéis solares e bateria vale 15% a 20% mais no mercado", confirma um agente imobiliário do Grande Porto.

O que começou como resposta à crise energética transformou-se num movimento social com implicações económicas, ambientais e até políticas. Nas próximas eleições autárquicas, vários candidatos incluem nas suas propostas o apoio a comunidades energéticas locais. "Finalmente perceberam que este não é um nicho de eco-entusiastas, mas uma necessidade para a maioria das famílias", comenta um activista ambiental.

Enquanto isso, nas varandas e telhados de Portugal, a revolução continua, painel solar a painel solar, bateria a bateria, comunidade a comunidade. Sem fanfarras, sem discursos grandiosos, mas com a determinação silenciosa de quem decidiu que o futuro energético não se espera - constrói-se.

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