A revolução silenciosa do hidrogénio verde em Portugal: entre promessas e realidades

A revolução silenciosa do hidrogénio verde em Portugal: entre promessas e realidades
Enquanto os olhos do país se voltam para as grandes centrais solares e eólicas que pontuam a paisagem, uma revolução mais subtil está a germinar nos laboratórios e nos corredores das empresas portuguesas. O hidrogénio verde, aquele produzido através de eletrólise usando eletricidade de fontes renováveis, promete ser a peça que falta no puzzle da descarbonização. Mas será que Portugal está realmente a preparar-se para liderar esta corrida, ou estamos apenas a assistir a mais uma onda de entusiasmo passageiro?

Nos últimos meses, os anúncios sucedem-se: parcerias internacionais, projetos-piloto no Sines, investimentos milionários que prometem transformar Portugal num exportador de energia limpa. A retórica oficial é ambiciosa – queremos ser o Dubai do hidrogénio verde da Europa. No entanto, quando se escava além dos comunicados de imprensa, surgem questões incómodas. Quem está realmente a financiar esta transição? As pequenas e médias empresas portuguesas terão lugar à mesa, ou ficarão à mercê dos gigantes internacionais?

A verdade é que a tecnologia ainda está na sua infância. Os custos de produção permanecem elevados, a infraestrutura de transporte praticamente inexistente, e os mercados finais – indústria pesada, transportes marítimos e aviação – ainda hesitam em comprometer-se. Enquanto isso, os fundos europeus do PRR destinados ao hidrogénio começam a ser alocados, mas a burocracia ameaça estrangular a inovação. Conversámos com investigadores do INEGI que trabalham há anos no tema e confessam um misto de esperança e ceticismo: "Temos a matéria-prima – sol, vento e know-how – mas falta-nos agilidade e visão de longo prazo", desabafa uma engenheira que prefere não ser identificada.

O caso do Sines é paradigmático. Apresentado como a futura "hidrogénia do país", o projeto enfrenta desafios logísticos colossais. Converter uma antiga central a carvão num hub de energia limpa não é tão simples como trocar o combustível. Requer redes elétricas reforçadas, soluções de armazenamento inovadoras e, acima de tudo, uma estratégia clara de quem vai consumir este hidrogénio. Os planos de exportação para o Norte da Europa dependem de navios especializados que ainda não existem em escala comercial.

Mas nem tudo são nuvens cinzentas. Nas universidades de Coimbra e do Porto, startups estão a desenvolver eletrolisadores mais eficientes, aproveitando a tradição portuguesa na química e nos materiais. Uma dessas empresas, nascida numa incubadora de Braga, conseguiu recentemente um investimento de capital de risco para testar um protótipo que reduz em 30% o consumo de energia na produção de hidrogénio. "É aqui, nas pequenas soluções, que está a verdadeira inovação", defende o seu fundador.

O setor dos transportes públicos começa também a dar os primeiros passos. A Carris, em Lisboa, anunciou testes com autocarros a hidrogénio para 2024, enquanto no Porto se discute a adaptação da frota de camiões de lixo. São projetos modestos, mas simbolicamente poderosos – mostram que a transição pode (e deve) ter um impacto direto no dia a dia dos cidadãos.

No meio deste frenesim, há uma pergunta que poucos se atrevem a fazer alto: estamos a colocar todos os ovos no mesmo cesto? A aposta no hidrogénio verde é complementar, não substituta, de outras formas de energia renovável. Especialistas alertam para o risco de desviar investimentos urgentes em eficiência energética e redes inteligentes para uma tecnologia que só dará frutos daqui a uma década.

O que está em jogo vai além da tecnologia ou da economia. É uma questão de soberania energética. Portugal importa atualmente mais de 70% da energia que consome. O hidrogénio verde representa uma oportunidade histórica para inverter esta dependência, mas apenas se for desenvolvido com uma estratégia nacional clara, que priorize o interesse público sobre os lucros de curto prazo.

Nos próximos meses, os decisores políticos enfrentarão escolhas difíceis. Subsidiar a produção em larga escala ou apoiar a inovação descentralizada? Atrair multinacionais ou fortalecer o ecossistema local? As respostas a estas questões definirão se o hidrogénio verde será realmente um motor de desenvolvimento sustentável ou apenas mais um capítulo na longa história das oportunidades perdidas.

Enquanto isso, nas comunidades locais onde se planeiam os grandes projetos, os habitantes observam com um misto de expectativa e receio. "Queremos emprego e progresso, mas não à custa do nosso território", diz-nos um agricultor de Santiago do Cacém. O seu aviso serve de lembrete: nenhuma revolução energética será bem-sucedida se não for também uma revolução social.

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